Deu na telha de ler umas peças do Nelson Rodrigues esses dias, já que não encontrava o sujeito desde que ganhei meio grau de miopia. Aproveitei o ócio da labuta e A Falecida acabou caindo no meu colo. O teatro na verdade nunca foi a minha, tenho uma certa dificuldade em acompanhar os bambas da dramaturgia estrangeira e acabo tentando uma aproximação através do que foi feito em terras brasileiras - cujo auge se dá na escrita do Nelson. Só li quatro das dezessete peças do cara, mas para além da temática recorrente em seu estilo, que descortina pudores e pisa com força em certos valores, me fascina a capacidade de tratar das mais sórdidas manifestações humanas com a sofisticação textual de um poeta. Um denominador qualquer não suportaria a carga de ousadia pungente que escorre de suas palavras.
É a estética do choque. Jardim elétrico.
A Falecida é um texto onde a violência aparece como força propulsora dos atos dos personagens, subjugando-os a uma crueldade que se torna necessária para que conquistem seu espaço no mundo. Só que a violência não aparece em seu estado bruto, físico, e sim retrabalhada, através de atos implícitos, de falas grosseiras, de pernas cabeludas e de uma teta arrancada. A vulgaridade dos personagens revela um instinto de autodefesa que se constrói por meio do ataque - a velha máxima do futebol. Num país de cínicos, ganha quem for mais desbocado.
É então que a tragédia se anuncia - o título já pressupõe a morte -, mas a intensidade do texto vem é da sujeira congênita ao colóquio, onde os estados mais impuros da natureza humana se transfiguram e mostram que gosto bom é gosto de boca. Do lixo, de ouro, de lata, mas boca. É também uma peça triste, culpada, repleta de demônios com poder de destruição capazes de isolar um homem em pleno Maracanã lotado. O diálogo que capta o espírito do texto e sintetiza o desejo íntimo de Nelson é demais:
PIMENTEL – Que é isso que você está chupando? ZULMIRA – Drops. PIMENTEL – Joga fora. ZULMIRA - Por quê? PIMENTEL – Porque eu vou te dar um beijo e quero sentir gosto de boca.
(solo de bateria)
é isso aí,
bicho
30.6.09
[2:59 AM]
O panorama do cinema francês terminou e eu dei mole em não rever Horas de Verão, de Olivier Assayas. Voltei a me entusiasmar com o cara depois de Boarding Gate, típico filme-vinil, de dois lados, onde uma história de amor e vingança entre Asia Argento e Michael Madsen desemboca num thriller frenético, de roupagem moderna, com experimentações de ângulos e cores que catalisam a ação do filme e garantem uma lufada de oxigênio no cinema de Assayas.
Horas de Verão não se propõe a tanto: é um filme tímido, sutil em seus detalhes, que esconde sob uma aparente despretensão uma vontade de abraçar o espectador e trazer o cinema para mais perto dele. Nesse sentido, dialoga diretamente com A Viagem do Balão Vermelho, o poema visual que Hou Hsiao-Hsien realizou sobre o cotidiano. Ambos são dois filmes difíceis de classificar, não se sujeitam a explicações fáceis e se recusam à limitação de síntese proposta por essas pobres linhas.
Está lá o cotidiano, o desenrolar de pequenas tarefas banais, os personagens que se cruzam como se estivéssemos ao seu alcance, táteis, conversando no banco da praça ou ao nosso lado, na esquina, enquanto o sinal não abre. Sem imposições, reduzindo o conflito ao máximo do minimalismo diário e habitual, somos convidados a observá-los, simplesmente, e deixar que a sucessão de suas atitudes e seus compromissos familiares e profissionais se encarreguem de alimentar nosso olhar ao longo da narrativa.
Tal qual Hsiao-Hsien, imagino que Assayas acredite, acima de tudo, na crueldade imposta pela solidão ao homem moderno, perdido no meio de uma avalanche tecnológica e cada vez mais distante de questões fundamentais e necessárias à sua posição (como, por exemplo, um questionamento sobre a função da arte hoje em dia). Fez, então, um filme para que possamos, mesmo que por um instante, devolver a nós mesmos o prazer de observar, pura e asceticamente, onde estamos. São filmes como esse que provam, por maiores que sejam nossas insistências em pensar o contrário, a certeza de Ozu: a rotina tem mesmo seu encanto.
é isso aí,
bicho
26.6.09
[2:04 AM]
O cara era foda. Um ícone, com todas as idiossincrasias próprias do termo: excêntrico, talentoso, controverso (black or white?), polemista, carismático, daqueles poucos sujeitos com capacidade de arrastar os olhos de uma multidão feito ímãs por onde passava, para o bem ou para o mal. Mesmo não sendo nascido quando sua carreira conhecia o apogeu, sempre curti o som de Michael Jackson, a pegada dançante, o suingue e a força com que suas músicas potencializavam a energia de qualquer pista de dança que se preze. Pelo menos enquanto era negão. Os discos de sua época de ouro (que vai do período Motown até o Bad) ainda rolam direto nas caixas daqui de casa, e todo mundo dança.
Não me recordo com muita precisão (quando exageram no meu copo de vodka desconheço o significado do termo), mas, segundo a Isadora, dancei um moonwalk alucinado no palco da Casa Rosa, ano passado, ao som de Billie Jean. Curto demais. Mesmo a galera que patrulha as atitudes do Michael, se armando de pedras e tomates quando seu nome surge em alguma conversa de boteco, arrisca alguns passos e balança o esqueleto quando um DJ tira Rock With You da manga, ressuscitando cadáveres e reavivando corpos inertes. De vícios estamos cheios, quiçá alagados, portanto não irei perder meu tempo discutindo e julgando as debilidades do Michael. Que era o cara. Ou pelo menos foi, soberano, durante muito tempo.
Morre Michael Jackson, o homem que levou a música pop ao seu mais alto grau de excelência, e fica seu legado, enorme, inestimável, que vai da revolução da dança coreografada e do videoclipe aos diretos sobre a obra dos Beatles. O dia de hoje legitimou o fim de uma era para a música e para a cultura pop. Mais uma parte da história se conclui, enterrando num passo para trás o tempo em que se faziam ídolos de proporções globais. Gostaria de acordar amanhã e me ver vítima do mais ousado golpe publicitário do século XXI, onde Michael ressurgiria mostrando seu poder e sua influência sobre o show business alegando que tal ato foi um misto de paranóia e estratégia para promover sua próxima turnê. Orson Welles aplaudiria de pé, charuto aprumado e copo duplo de uísque, diretamente das catacumbas do Inferno em que se hospeda. Michael saiu de cena com a mesma idade da ainda jovem Motown, gravadora que o lançou há quatro décadas, deixando como última obra a lenda que construiu sobre si.
Rockin’ Robin, the beat goes on! I Want You Back continuará rolando madrugadas afora, sempre quente...
é isso aí,
bicho
18.6.09
[2:41 AM]
Eis a dúvida: como fazer uma reportagem sobre um dos mestres da reportagem? Uma matéria da Veja dessa semana mostrou que sinapses ainda acontecem dentro da redação da revista ao ceder a palavra a Gay Talese, fera do jornalismo norte americano, e deixar que sua eloquência e lucidez norteassem os rumos do papo que gerou o artigo publicado na edição. Sempre pensei que a Veja fosse comandada por robôs políticos dissidentes da Gestapo com sérios problemas em relação ao que acontece no território brasileiro - nesse caso, me enganei. Ou então me enganaram, latarias malditas.
O fato é que vale a pena partilhar a perspicácia da fala de Talese, que atenta para pontos importantes a respeito do posicionamento da imprensa diante dos problemas da sociedade, do governo e do surgimento de novas mídias. Por isso, vai reproduzida aí embaixo, na íntegra, a matéria que a Veja fez sobre o cara. Nesses tempos em que o diploma não é mais exigido e que o jornalismo se mostra cada vez mais asséptico, chega a ser um alívio ler o conteúdo de linhas como essas: "A imprensa americana caiu na lorota de que havia armas de destruição em massa no Iraque por algumas razões. Primeira: os atentados de 11 de setembro criaram um clima de espanto. Uma coisa é falar de guerra lá longe, na Normandia, no norte da África, falar do general Erwin Rommel, de Mussolini, Hitler. Outra é sofrer hostilidades de forças estrangeiras dentro de Nova York. Era inacreditável, e George W. Bush capitalizou isso. Ganhou enorme poder. Era o nosso defensor contra futuros ataques e o árbitro sobre o que era bom para nós. Fomos induzidos a acreditar que o governo tinha informações que nem o público nem o Congresso conheciam. A imprensa, muito crédula e um pouco ingênua, entrou no clima. Segunda razão: havia um fervor patriótico. A imprensa se sustenta com publicidade, e o pessoal tinha receio de ser percebido como antipatriótico – o que naqueles dias era o mesmo que ser anti-Bush – e acabar financeiramente punido, com os anunciantes debandando. O comediante Bill Maher fez uma brincadeira em seu programa na rede ABC, dizendo que os terroristas podiam ser chamados de tudo, menos de covardes, e foi retirado do ar. Essa atmosfera durou uns dois anos. Terceira: os jornais, Washington Post, The New York Times, efetivamente acreditavam no governo, e, por último, os repórteres que cobriam Washington eram muito diferentes dos repórteres do meu tempo, que cobriram a Guerra do Vietnã nos anos 60. Não eram céticos."
"Os repórteres que estavam em Washington em 2002 não tinham o ceticismo, o estranhamento necessário. Foram educados nas mesmas escolas que o pessoal do governo. Eles vão às mesmas festas que o pessoal do governo. Seus filhos frequentam as mesmas escolas. Todos nadam na mesma piscina, pertencem ao mesmo clube de golfe, vão aos mesmos coquetéis. São repórteres prontos para acreditar no governo. É assim hoje, e era assim em 2002. Os repórteres estavam prontos para acreditar no governo sem pedir provas, evidências, nada. Por pouco, não acusaram Saddam Hussein de ter patrocinado os atentados de 2001. Eram como um bando de pombos para os quais o governo jogava milho. Os repórteres de hoje cobrem a guerra dentro dos tanques das tropas americanas. É ridículo. Um repórter deve prestar contas ao seu jornal, e não ao coronel que está protegendo a sua vida. Num evento público, eu me encontrei com o Arthur Ochs Sulzberger, que hoje dirige o Times, e disse a ele que isso estava errado, que repórteres não podiam trabalhar com militares, mas ele acha que estava certo. Na minha geração, éramos diferentes, éramos de fora, como estrangeiros. Podíamos ter nascido nos EUA, nossos pais podiam ter ido à universidade, mas ainda assim nos sentíamos como estrangeiros. Éramos todos de classe social mais baixa. Éramos judeus, irlandeses, italianos, alguns eram negros. Minha geração não era composta de anglo-saxões que estudaram em Harvard, Yale ou Princeton, que formavam e ainda formam a gente que vai trabalhar no governo ou em Wall Street. No meu tempo, James Reston (1909-1995) era chefe da sucursal do Times em Washington. Reston nasceu na Escócia, mas tinha muito orgulho dos Estados Unidos. Abe Rosenthal (1922-2006) era judeu, nascido no Canadá, seu pai era da Rússia. Meu amigo e o melhor repórter da minha geração, David Halberstam (1934-2007), era judeu, seu pai era um médico militar. Halberstam tinha um senso crítico, um ceticismo notável a respeito deste país. Harrison Salisbury (1908-1993) cobriu a II Guerra e, nos anos 50, foi à União Soviética quando Stalin estava no poder. Salisbury não acreditava em nada. Não acreditava em Stalin, nem em Dwight Eisenhower. Salisbury era como todos nós, de fora. No Vietnã, Salisbury foi para Hanói antes dos soldados americanos para pegar histórias do outro lado. Se Halberstam ou Salisbury estivessem vivos e trabalhando em jornalismo, jamais teriam comprado essa lorota do Iraque. O Times não teria tratado como informação o que era apenas desinformação e propaganda."
"O governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo. Hoje, devemos ter uns 10.000 repórteres em Washington. Há uma civilização inteira de jornalistas em Washington. Se eu dirigisse um jornal, eliminaria de 50% a 60% da sucursal de Washington e mandaria os repórteres para outros lugares do país, para Califórnia, Nebraska, Flórida. Sabe o que aconteceria? Estaríamos tirando a ênfase sobre o governo e neutralizando sua capacidade de controlar o discurso político. Em vez de ficarmos segurando o microfone para o governo falar, estaríamos trazendo notícia sobre como as decisões do governo são percebidas e como são sentidas longe de Washington. Isso é vida real. É cobrir os efeitos das medidas do governo sobre a economia, a gripe suína, seja o que for, mas longe do governo e perto da sociedade. A multidão em Washington decorre do fato de que as pessoas adoram o poder e ficaram preguiçosas. Jornalista ama o poder, ama lidar com o poder."
"Com as novas tecnologias, e sobretudo com a criação da internet, o público hoje é informado de modo mais estreito, mais direcionado. Na internet, os jovens se informam de modo muito objetivo, no mau sentido. Eles têm uma pergunta na cabeça, vão ao Google, pedem a resposta, e pronto. Estão informados sobre o que queriam, mas é um modo linear de pensar e ser informado, que não dá chance ao acaso. Quem está interessado em saber sobre o presidente do Paquistão vai à internet, fica sabendo que ele andou visitando Washington, quem é o seu principal oponente, essas coisas. Quem lê um jornal impresso lê sobre tudo isso e depois, ao virar a página, lê sobre a mulher do Silvio Berlusconi, depois sobre as chinesas que perderam seus filhos naquele terremoto, depois sobre o desastre do Air France que saiu do Rio para Paris. Enfim, lê histórias que não procurou e, por isso, acaba adquirindo um sentido mais amplo do mundo. Claro que você também pode fazer isso na internet, mas o apelo da internet é o oposto. É oferecer informação rápida. A internet é o fast-food da informação. É feita para quem quer atalho, poupar tempo, conclusões rápidas, prontas e empacotadas. Quem se informa pela internet, de modo assim estreito e limitado, pode ser muito bem-sucedido, ganhar muito dinheiro, mas não terá uma visão ampla do mundo. Para piorar, surgiram esses blogs com blogueiros desqualificados, que apenas divulgam fofoca. São como uma torcida num jogo de futebol que fica o tempo todo gritando para os jogadores, para o juiz. É gente que não apura nada, só faz barulho."
"O politicamente correto é um veneno para o jornalismo. Em 2006, aconteceu um caso exemplar. Na Carolina do Norte, uma mulher foi contratada para dançar numa festa dos jogadores do time de lacrosse da Universidade Duke e disse que bebeu demais e acabou estuprada por três jogadores. O caso ganhou as primeiras páginas. Os jornais nunca publicaram o nome da moça, e divulgaram fartamente o nome dos rapazes acusados do estupro. Ela era negra. Eles eram brancos. No fim, descobriu-se que ela era uma mentirosa. Os jornais, o Times inclusive, protegeram a mentirosa e expuseram os inocentes. Por que o Times fez isso? Porque queria ser sensível à situação de uma afro-americana. Jayson Blair, que publicou várias mentiras como repórter do Times, é outro exemplo. Ele foi contratado porque o jornal queria ter mais representantes das minorias, e Blair era negro. Foi contratado por Gerald Boyd, o primeiro negro a chefiar a redação do Times. Acima dele estava apenas o diretor de redação, Howell Raines, um branco do sul. Boyd e Raines queriam ser politicamente corretos e contrataram Blair porque era negro. E, porque era negro, faziam vistas grossas para os seus erros, deixavam passar, até que a coisa estourou. Só foram tolerantes com os erros de Blair porque queriam ser politicamente corretos. No jornalismo, isso não funciona. O jornalismo tem de ser vigilante, justo, realista, disciplinado, e não se preocupar em ser ou parecer politicamente correto."
"A crise dos jornais americanos não é uma crise do jornalismo americano. Moro em Nova York há cinquenta anos. Já vi muitos jornais fecharem as portas. Nos anos 60, acabou o The New York Herald Tribune, que era um grande jornal, mas grande mesmo. Antes, fechou o tabloide New York Daily Mirror. Eu cresci lendo revistas como Life, Saturday Evening Post, Look, e nenhuma delas existe mais. Em Nova York havia quinze jornais. Quando cheguei aqui, em 1959, eram sete. As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. As pessoas vão sempre precisar de notícia e informação. Sem informação não se administra um negócio, não se vende ingresso para o teatro, não se divulga uma política externa. Todos os dias, nos jornais das cidades grandes ou pequenas, repórteres vão à rua para fazer o que não é feito por mais ninguém. De todas as profissões, se um jovem estiver interessado em honestidade e não estiver interessado em ganhar muito dinheiro, eu aconselharia o jornalismo, que lida com a verdade e tenta disseminar a verdade. Há mentirosos em todas as profissões, inclusive no jornalismo, mas nós não os protegemos. Os militares acobertam mentirosos. Os políticos, os partidos, o governo, todos fazem isso. O escândalo do Watergate é uma crônica de acobertamento. Os jornalistas não agem assim, não toleram o mentiroso entre eles. Acho uma profissão honrosa, honesta. Tenho orgulho de ser jornalista."
é isso aí,
bicho
7.6.09
[4:56 AM]
MASCULIN FÉMININ: 15 faits précis
1966 Jean-Luc Godard
é isso aí,
bicho
30.5.09
[10:32 PM]
Cannes 2009: O júri é muito simpático mas é incompetente. Prêmio especial para Resnais? Palma de Ouro para Haneke? Muita marmelada. De longe, aqui do Brasil, recebendo os filmes através das linhas de cobertura feitas por algumas pessoas bacanas, não duvido que os melhores tenham sido premiados. Festival é assim mesmo, nem sempre o que a gente quer acontece. Em Cannes, então, com um nível de exigência do mais alto grau, não esperava decisão diferente de um júri capitaneado por Isabelle Huppert. A identificação artística com Haneke fez com que o diretor já entrasse em campo com uma vantagem em relação aos outros concorrentes. E dizem (o Merten, pelo menos) que A Fita Branca é mesmo o melhor filme do cara. Vamos esperar pelo Festival do Rio, então, para comprovar essa decisão que carrega uma leve pontada de nepotismo, se os deuses da boa vontade não tomarem a palavra por seu significado literal. Mesmo assim, fica um gosto de caroço de feijão na boca.
Gosto bastante do Haneke. Seu cinema me provoca, vez em quando cospe umas verdades sujas na minha cara a fim de cobrar uma reação por isso. Na maioria dos casos não usa palavras para deflagrar os terremotos sociais que seus filmes sugerem – é um cineasta de situações, de gestos e movimentos, onde o conflito da narrativa é instaurado a partir de resoluções visuais que dispensam suplemento textual. E essas resoluções, secas e pontuais, com o plano aberto e quase sempre imóvel, revelam conceitos e problemas da sociedade contemporânea com uma urgência quase documental.
Os primeiros minutos de Código Desconhecido, por exemplo. Um impressionante plano-sequência iniciado com um diálogo amistoso desemboca num confronto físico entre dois jovens no qual se misturam a questão racial, a posição social dos envolvidos e o abuso de poder das autoridades. Quase 10 minutos de imersão numa atmosfera sufocante que marca o tom de todo o cinema de Haneke. Em seu pensamento, só a tensão entre pólos opostos é capaz de sugerir a reflexão.
Nesse ambiente de frieza e impessoalidade, o que mais me atrai é o modo do diretor de captar o cenário em que ambienta seu rol de manipulações e sadismos. Mais do que a encenação do incômodo, de percepção do estado das coisas entre os homens, gosto do modo com que Haneke filma as ruas, os ambientes internos, as fachadas das casas, limpas, vivas, repletas de elementos díspares resultantes da globalização coexistindo aparentemente em harmonia (tema recorrente dos filmes do sujeito), mas cujas estruturas abrigam e disfarçam doenças sociais e valores corroídos, instintivamente primitivos, mostrando um descompasso nítido entre os avanços materiais e humanos do que se convencionou chamar de pós-modernidade.
É um discurso radical, complexo, que toca em várias feridas e expõe as chagas sem apresentar contra-propostas. Do ponto de vista sociológico, Haneke é um bom cineasta. Sua visão de mundo expressa um olhar cruel e seus métodos de abordagem são até discutíveis, mas depois de Código Desconhecido não me resta dúvida de que, se é realmente apenas isso o que ele sabe fazer (como diz um suposto alter ego do diretor no filme), que continue a explorar o cinema e a violência através desse viés. Na falta dos verborrágicos, o mundo precisa de polemistas visuais para alimentar suas discussões. Pois quem não se comunica se estrumbica, já dizia o bandido.
é isso aí,
bicho
25.5.09
[1:31 AM]
eu quando olho nos olhos sei quando uma pessoa está por dentro ou está por fora
quem está por fora não segura um olhar que demora
de dentro de meu centro este poema me olha
Paulo Leminski
é isso aí,
bicho
24.5.09
[5:25 AM]
No 1º ano do ensino médio, a escola em que eu estudava promoveu um debate no auditório lembrando o aniversário de meio século do suicídio de Getúlio Vargas. Foram colocados frente a frente dois grupos, cada um com umas cinco ou seis pessoas, que tinham opiniões divergentes acerca das intenções políticas do presidente. Uns o acusavam de fascista, outros exaltavam o avanço progressista de suas reformas. Eu fiquei na plateia, jogando bolinha de papel no palco e indeciso quanto ao lado em que me alinhava. Em cima do muro, tal qual o próprio Vargas ficou em diversos momentos de sua trajetória. Lembro que a Jana defendeu com unhas e dentes o presidente do povo, pai dos pobres, dos direitos trabalhistas, da Petrobras etc. Coisa de quem cresceu e foi educado sob a estrela da esquerda.
A verdade é que o período ditatorial de Vargas, o Estado Novo, continua sendo um capítulo nebuloso da nossa história. O que se relata nos livros é o lado burocrático da época, com a enumeração das características comuns a um governo despótico, deixando de lado episódios que evidenciam a perversidade do período. A censura obstrui o acesso à verdade, e hoje Vargas é visto como um herói para o povo brasileiro. Um dos presidentes mais populares que o Brasil já teve. O mesmo que dificultou as coisas para Orson Welles quando este veio para cá, em meados da década de 40. O mesmo que praticava torturas e coações, espancando civis e legitimando sua soberania através da violência e da intimidação.
Essa aulinha tosca de História aí em cima se justifica porque acabei de assistir a O Caso dos Irmãos Naves, filme de Luiz Sérgio Person que relata a história de dois irmãos injustamente acusados, violentados e encarcerados por mais de oito anos pelo governo Vargas. Em Araguari, cidade do interior de Minas, no final de 1937. A quebra da bolsa norte-americana ecoava nas plantações e nos estoques de café, o fascismo ganhava força e influenciava diretamente a Polaca, nossa quarta constituição. O filme se apóia nesses fatos para relatar, com uma secura quase documental, os trâmites judiciários e políticos que regeram o caso. De ritmo ágil, ancorado pelos diálogos concisos do roteiro escrito por Person em parceria com Jean-Claude Bernadet, existe no filme um movimento pendular que oscila entre o cinema policial, o drama familiar e o filme de tribunal, onde o jogo de moralidade e as relações de poder aproximam-no de uma realidade pretendida e explorada com uma agressividade que acaba por impedir sua classificação dentro de qualquer um dos três gêneros.
Se já havia demonstrado um senso estético vigoroso e cerebral em São Paulo S/A, com planos estudados em minúcia e um raciocínio de espaço que privilegia a relação (nem sempre harmoniosa) entre homem e ambiente, Person usa movimentos discretos de travelling e zoom neste filme como que para suavizar a tensão do texto, criando, a partir dessas flexibilizações de plano, espaços de respiração, de atenuação. O uso de profundidade é explorado em diversos momentos, como nas sequências da delegacia, onde um quadro de Vargas exposto na parede ao fundo é fotografado de modo a ressaltar sua patrulha da ação, uma espécie de controle absoluto de tudo que ali se passa. São toques de quem sabe o que faz e assume os riscos dessa postura. É bom lembrar que O Caso dos Irmãos Naves foi lançado em 1967, durante os primeiros anos da nossa segunda ditadura e, até onde sei, não sofreu nenhum tipo de represália por parte dos censores. Não quiseram se envolver novamente naquele que é considerado o maior erro do judiciário brasileiro.
Duas sequências são emblemáticas: as de tortura no campo, onde a câmera treme nervosamente a fim de ressaltar a violência que cai sobre os dois irmãos, com a luz sendo filtrada pelos galhos das árvores criando uma sensação cruel de desconforto e paradoxo (como um dia iluminado e bucólico permite tal atrocidade?); e uma no tribunal, essa das fotos aí em cima, onde os irmãos confessam para o júri que são inocentes, e que apanharam e foram torturados pela polícia local para dizer a verdade, posicionados de frente para a câmera, no meio da tela, com os habitantes da cidade preenchendo o campo ao fundo, fora de foco, indiscretamente passivos. De arrepiar.
Person elevou o cinema brasileiro às maiores potências da criação artística em sua curta carreira. Os dois filmes citados aqui são provas incontestes de sua capacidade de filtrar uma realidade e conciliar questões problemáticas inerentes à sua condição com um controle técnico que poucos conseguiram alcançar. Não é todo dia que se encontram filmes desse tamanho no cinema brasileiro. Grandes, imensos. Maiores do que qualquer coisa que se possa escrever sobre eles.
O Caso dos Irmãos Naves (Luiz Sérgio Person, 1967)
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bicho
21.5.09
[1:22 AM]
Comprei um caderno, abri um Twitter e continuo com o blog. Mas e a preguiça de escrever? Articulo ideias e mais ideias no ônibus, indo para o trabalho, mas quando tento reproduzi-las no papel a terra treme. Meu negócio é com imagem mesmo, não tem jeito...
Li duas novelinhas do Joseph Conrad essa semana: Juventude e O Coração das Trevas. O Coppola fez uma leitura bastante fiel do livro, mesmo alterando algumas passagens e inserindo outras muito bem sacadas (toda a sequência do surfe com o Robert Duvall, por exemplo). Manteve, no entanto, o clima de paranóia e tensão que perpassa a narrativa, conservando a excitação causada pelo contato com o desconhecido e intensificando a crise de identidade dos personagens, colocando a sanidade mental à prova diante do primitivismo indiferente da natureza. A cena em que o Martin Sheen emerge das águas, já no desfecho de Apocalypse Now, mostra o domínio cênico do Coppola e como ele soube, a partir do texto do Conrad, elevar uma passagem pálida e insignificante do livro a uma sofisticada e emblemática sequência de suspense.
Outro que bebeu na fonte do escritor polonês foi Herzog. Aguirre vem daí, dessas trevas. Achei estranho o fato de nunca ter lido nada a respeito desse paralelo, cuja gênese é bastante similar. O que muda, no caso, é o ponto de vista. Se no filme do Coppola eles vão até Kurtz, Herzog antecipa sua ação e encena o momento em que Kurtz descobriu as trevas. Ou se descobriu através delas, vai saber.
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bicho
18.5.09
[12:35 AM]
"Estes espetáculos de violência gratuita que se fazem fundindo uma coisa e outra de uma forma modernosa não passam de tentativas frustadas de refletir a nossa realidade. E principalmente as cenas de violência e as cenas de amor que são uma gaiatice de fazer dó. Nosso cinema involuiu. Temos bons fotógrafos. Mas em nível de roteiro e de composição de personagens estamos num estágio pré-crítico. Era preciso que se voltasse a Lumière e Méliès. E mesmo Griffith ainda não foi alcançado. O problema é que não se conhece a história do cinema e nem a história das artes. Quando passa um filme do Stroheim não tem ninguém para assistir. Estão todos em seus videocassetes vendo filmes modernosos. É como nas novelas da Manchete: a mulher diz 'me larga' e não tem ninguém segurando."
"Acho que o caminho é a diferenciação, a multiplicidade. De um lado, existe um profissionalismo pornô que me recuso a fazer. Do outro, esse amadorismo grato, que se faz muito em São Palo, eu acho pior ainda. Quer dizer, no fundo são todos elitistas, 'elitários', e a minha proposta é oposta. Não quer dizer que sou pior, ou melhor. Agora, sou diferente. Não tenho nada com esse cinemazinho que às vezes o público, na sua ingenuidade, prestigia, mas que tem essa temática da política por psicanalistas e não por diretores. Uma moda que se pretende ser avançada, mas é mais velha do que andar pra frente. Pra mim, me interessa um tipo de cinema eficaz, funcional. Um cinema que tenha liberdade de câmera, de microfone, de montagem, porque acho que o grande problema do cinema brasileiro, hoje, é voltar a ser cinema. O que se faz aí acaba não sendo cinema, televisão ou videoclip. É muito pior que isso tudo! As pessoas pensam que estão fazendo cinema, mas na verdade estão fazendo televisão mal-disfarçada. E sem a eficácia e a instantaneidade desta. E isso tudo vem a reboque dessa classe média emergente, que realiza um tipo de cinema novo-rico. Um exemplo, aliás, que deveria ser jogado na lata de lixo da história."
Para momentos de preguiça, burrice e crise, Rogério Sganzerla.
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bicho
9.5.09
[1:50 AM]
Queria que este fosse um lugar interessante para mim. Onde eu pudesse vir à noite e ler algo engraçado, sem sentido, idiota ou até mesmo sem fundamento algum. Porque, sem sacanagem, o fato de este espaço não encontrar divulgação em qualquer outro veículo, de não ter o famigerado feed RSS ou de não ser integrado aos mais modernos mecanismos de busca não é mera coincidência. Antigamente não era assim. Eu costumava correr atrás de novos leitores colocando anúncios em caixas de comentários alheios, mandando e-mails para meus amigos divulgando o endereço e distribuindo recados em blogs como quem oferece folhetos de propaganda evangélica nas ruas. Queria ser lido de qualquer maneira, independente do que escrevia. Hoje as coisas são diferentes. Compreendo e respeito as limitações deste blog. Por isso, o motivo principal que ainda me leva a escrever não passa muito longe do narcisismo. Por que eu escrevo aqui para que possa me ler. Para tentar me aproximar um pouco mais de mim. E me envergonhar disso. E me penalizar por isso, com essas ausências semanais injustificadas. Às vezes venho com uma imagem, um poema, uma música, um trecho de livro, e aquilo diz tanto sobre o que está acontecendo em determinado momento da minha existência que não vejo necessidade de suplementar com textos bobos ou com parágrafos prolixos. Urubus elétricos voando na noite enevoada da metrópole, à procura de carniças que possam aumentar a intensidade de sua luz. Pedro Páramo é um romance de desilusões, de amores perdidos numa pátria despedaçada, onde os ideais se embolam com o feno e passam voando pelo deserto. Imagino a sensação de alguém que leu esse livro durante os anos de chumbo, assistindo impotente aos exílios, as partidas, as perdas, e a vontade de apagar tudo aquilo da memória.
À medida que os meses passam, e que a caixinha de arquivos aqui ao lado só faz crescer, sinto uma vontade incômoda de apagar todos os registros, de recomeçar do zero, de esquecer o Samuel do último post e rumar para outros mares. Quem sabe até mudar de hospedeiro. Esse espaço me fez perceber o péssimo inquilino que sou, construindo dívidas comigo mesmo, incapaz de escrever coisas que me interessam. Ou será só a localização do computador, aqui na sala, que bloqueia minha criatividade e minha capacidade de escrever coisas interessantes? Ultimamente tenho pensado muito em voltar ao lápis, comprar um caderno e rabiscar esses vastos pensamentos e suas emoções imperfeitas por lá, para descarregar um pouco essa masturbação mental. Mas não pretendo me desapegar de nada, muito menos apagar qualquer vestígio de imaturidade registrado aqui. Prefiro respeitar meus anos de juventude, deixando cada coisa como está. Nesse momento, me sinto como Juan Preciado, personagem do livro de Rulfo, que volta ao seu passado em busca de respostas, a fim de preencher lacunas que o tempo deixou incompletas em sua memória. O século XX expurgou seus demônios quando encontrou a psicanálise, e por isso não havia outra saída: Juan encontra em seu caminho milhares de perguntas e traumas, e é confrontado por todos eles, cada um mais incômodo que os outros. Talvez minha saída seja o divã. Ou um emprego de 12 horas. Ou uma namorada surda. Vez em quando leio os arquivos daqui, textos que escrevi três anos atrás, quando eu era muito menor que hoje, sem o bigode de trocador que finge ocupar meu buço, sem o pôster do Lennon na parede e sem um quarto para chamar de meu. E tirando as tentativas de pedantismo, de soar um cara que eu não sou, acabo até rindo de algumas coisas. De mim mesmo, na verdade, e dos projetos que tinha em mente. Agora eu sei: são só bobagens, meu filho, bobagens.
Prometi que maio seria o mês dos filmes, que voltaria a eles e procuraria então entender o motivo que tem cada vez mais me afastado deste espaço. Por enquanto, quem tem me ajudado a me livrar da tirania deste blog são os livros de parágrafos intermináveis. Lembro do Kafka, que, ao morrer, pediu a um amigo que queimasse seus escritos, por achar que eles não eram bons o suficientes para ver a luz do dia. Não que isso vá explicar alguma coisa, mas achei que valia a pena terminar com uma imagem bonita, poética. De atitude. Essa característica que descobri existir em mim há pouco tempo, encerrada no quarto dos fundos do peito, que me aproxima cada vez mais da minha essência, anjo torto envolto num embrulho de jornal cujo alcance está longe de se misturar com a carniça que os urubus elétricos caçam pelas margens da cidade. Pedro Páramo vaga pela Lapa de olhos abertos.
E sabe que, da próxima vez, o importante é fazer tudo diferente.
é isso aí,
bicho
4.5.09
[3:36 PM]
Existe um grande clube na cidade
Que mora dentro do meu coração
Eu vivo cheio de vaidade
Pois na realidade é um grande campeão!
Nos gramados de Minas Gerais
Temos páginas heróicas imortais
Cruzeiro! Cruzeiro! Querido!
Tão combatido, jamais vencido!
Poucas vezes o hino cruzeirense fez tanto sentido como agora (na verdade, em outras dez ocasiões), onde o time sagrou-se bicampeão mineiro invicto, com apenas uma derrota no ano de 2009 e um dos melhores elencos do país. Na foto, eu apareço com uma camisa amarela no ombro, ao lado do Túlio, de azul, um amigo dele que eu não lembro o nome e o Buiu, sem camisa. Peço perdão aos míopes, já que quase não dá para ver direito, mas isso nem é tão importante assim. O que interessa é que nove anos depois da histórica decisão da Copa do Brasil, onde eu vi o Cruzeiro levar o título de virada em cima do São Paulo, o filho pródigo voltou a casa para levantar mais uma taça e ver seu time rumo a Dubai, num ano que desde já cheira a títulos e conquistas brasileiras, americanas e transatlânticas... todas elas em clima de sangrentas batalhas gladiadoras! Vamos, Cruzeiro, à ganhar!
é isso aí,
bicho
24.4.09
[5:06 AM]
- James Gray, com apenas quatro filmes, será membro do júri de Cannes esse ano (presidido pela Isabelle Huppert, aliás). Esse aí em cima é o pôster do mais recente deles, Amantes, que já está disponível na internet mas deve estrear por aqui em breve, e é inspirado no livro Noites Brancas, do Dostô. Uma leitura deliciosa e que você faz em uma madrugada, pode confiar. Mesmo que o filme não corresponda às expectativas que eu carrego comigo desde que foi exibido e bem recebido ano passado no mesmo Festival, já irá valer a pena por manter acesa uma chama que eu espero não minguar tão cedo, que é a da minha relação com o cinema. Mas, a julgar pelo trailer e pelo cartaz, pode ser que nossa listinha de filmes do coração ganhe mais um componente. Sem falar que a seleção de Cannes esse ano tá barra pesada, dá só uma olhada.
- Ontem assisti Felicidade, do Todd Solondz, que me foi emprestado por um cara lá da livraria juntamente com O Pântano, da Martel, que eu já tinha visto mas queria muito rever. Não vou falar que fui ao filme do Solondz de braços abertos e receptivo, porque o problema em trabalhar com pessoas bem informadas é que elas acabam suscitando umas discussões imediatas e acaloradas que terminam por influenciar de alguma maneira minha visão sobre as coisas. E quando fiquei sabendo que se tratava de um tema tão recente e infelizmente já tão desgastado por uma galera despreparada - o universo disfuncional da classe média norte-americana -, fiquei com uma preguiça enorme e acabei deixando o filme de lado por uns dois meses. Até o cara vir me cobrar uma opinião e os filmes (na verdade muito mais os filmes do que uma opinião, eu sei), e eu tive que sacrificar minha leitura de madrugada em prol de uma sessão de tortura de quase duas horas e meia. Porque sim, Felicidade nada mais é do que uma afronta à minha inteligência, um filme que me agride de maneira quase física por já entrar em campo me tratando como um imbecil incapaz de pensar. Reduz as pessoas às suas esquisitices e se mostra tão frágil que sequer oferece oportunidade de libertação, se contentando apenas com a pobreza do fetiche pelo bizarro. Essa é a palavra: pobreza. E ainda somos obrigados a ouvir diálogos tão mal estruturados como aquele que é disparado o pior do filme, embora a briga pela posição seja boa, entre o pai pedófilo e seu filho: “ - Pai, você me foderia? – Não, no máximo tocaria uma punheta.” Depois dessa, tiro meu time de campo e peço pra sair.
- Mas há salvação, e, como não poderia deixar de ser, ela parte de um Samuel: agora que meu devedê estragou de vez, fui procurar abrigo em Cão Branco, do Fuller, um tipo restrito que ainda faz a gente crer na existência plena da expressão obra-prima. Pois, se aquele-que-não-deve-ser-nomeado (ou: o filme citado ali em cima) se satisfaz em escancarar as excentricidades de um núcleo social de maneira redutora e simplista, Fuller usa a violência para compor um painel de alta complexidade acerca das forças da natureza e das vãs tentativas humanas em se sobrepor a elas. Olhando por esse viés, é um filme que dialoga com a visão do Herzog sobre o tema e acaba por se alinhar a ela ao ressaltar a tirania indiferente da natureza sobre todas as coisas. Para quem como eu que achava o jumento Balthazar de A Grande Testemunha o melhor registro animal já feito no cinema, Cão Branco vem raivoso derrubando paradigmas e derivativos para se impor no topo dessa cadeia. Fuller não se dá por realizado ao esbarrar em soluções fáceis, como duas balas de revólver que resolveriam qualquer problema, e prefere acreditar que não há sucesso sem tentativa, nem glória sem esforço. E o filme se desenvolve nessa delicada linha entre a mais bruta violência animal e a força de vontade da perserverança humana, duas manifestações distintas que não demoram a romper a harmonia de uma relação que quase sempre flerta com o trágico. Fácil, fácil um dos grandes filmes dos anos 80.
- Melancia sem semente e Hot Buttered Soul às três da manhã, num volume exageradamente alto para a hora. Porque se o Carpenter já colocou o Isaac Hayes como "O Duque" em Fuga de Nova York, quem sou eu para contestar essa posição?
é isso aí,
bicho
15.4.09
[2:19 PM]
Perdeu. Fico com ela para abrir o show na minha garagem. Perdeu é a minha melhor música desse disco novo. Distorções, falsete, bateria acompanhado a guitarra, final explosivo, sexual, dia frio numa praia do Rio. O melhor jeito de se ouvir Zii & Zie e tentar captar a atmosfera que o Caetano quis transpor para o disco é durante um passeio de carro pela orla carioca, com o som bem alto, as janelas abertas, o vento entrando furioso enquanto a garoa molha o vidro da frente e os dois retrovisores. Não é conciso como o Cê, as letras contrapõem a escrita sintética do disco anterior, as referências chovem e se voltam cada vez mais para o universo tipicamente brasileiro do cara. Diria que Caetano flexibilizou as propostas de renovação apresentadas em Cê, de modo que não só a banda está muito mais afiada como também se permite alçar vôos maiores (o baixo soturno de Ricardo Dias Gomes encobre todo o disco como uma nuvem pesada, prestes a desabar numa tempestade; ao passo que Marcelo Callado e sua bateria acompanham com personalidade, dando o ritmo e a batida que o projeto de samba tanto pedia). No geral, é um disco que soa um tanto quanto irregular, assim como o anterior, mas cujos muitos momentos de brilhantismo (e coloque aí a linda recriação de Incompatibilidade de Gênios, o samba de Lapa, o frescor de A Cor Amarela, o instinto de Sem Cais e também o rap de A Base de Guantánamo) o colocam bem acima da média no que tange à música pop brasileira dos anos 2000. Seus discos, desde o primeiro, lá em 1967, são fortes o suficiente para soarem intransitivos, sobrevivendo às comparações e com uma riqueza sonora e textual que poucos conseguiram alcançar. Zii & Zie, portanto, não é mais um. É um disco de Caetano Veloso quarenta e dois anos depois, com todas as misturas e experimentações e inquietações que sempre transbordaram pelos cantos de toda a obra do artista baiano, seja ela escrita, cantada ou filmada. Assumindo o papel de um autêntico zii carioca, Caetano se mostra menos estrangeiro ao fazer um disco para ser apreciado e ouvido com os olhos livres e a cabeça aberta - brilhando, piscando, ardendo, resplandecendo a nave da cidade.
O estranhamento inicial invalida qualquer opinião, entusiasmada ou não. Mas tem coisas muito boas aí. Aos poucos a gente vai se entendendo e conversando.
é isso aí,
bicho
12.4.09
[1:51 PM]
Gran Torino mantém um diálogo muito mais aberto com Honkytonk Man do que com Dirty Harry. A rispidez e a violência dos personagens ajudaram a confundir as coisas. Mas Clint sabe olhar para seu passado sem se prender a ele. Embora o paralelo exista, em momento algum isso fica explícito ou sequer sufoca os mecanismos de sua narrativa. Aos 79 anos, Eastwood mostra-se consciente do momento histórico que vive e legitima um estado de transformação que vai além do conteúdo de seu filme. A mudança está aí: além de ser uma obra-prima, Gran Torino mostra como Barack Obama foi capaz de vencer uma eleição.
é isso aí,
bicho
8.4.09
[2:13 PM]
KEEP YOUR ELECTRIC EYE ON ME, BABY!
You are as porous as ever
Baby you can start a fire
I must be losing my mind
You're the object of my desire
I feel a change coming on
And the fourth part of the day's already gone
I'm listening to Billy Joe Shaver
And I’m reading James Joyce
Some people tell me
I got the blood of the land in my voice
Everybody got all the money
Everybody got all the beautiful clothes
Everybody got all the flowers
I don't have one single rose
I feel a change coming on
And the fourth part of the day's already gone
é isso aí,
bicho
3.4.09
[3:28 PM]
Moscou é o diamante polido da cinematografia brasileira neste fim de década. Mais uma vez, reitero: nada de Lula, Eduardo Coutinho é o cara. A exímia capacidade de se reinventar, de colocar seu objeto de investigação em crise, de romper preceitos estéticos e consolidar o imaginário em cena tal qual Welles sugeriu (Jogo de Cena e F for Fake em sessão dupla, por favor); à essa altura do campeonato, poucos são os que representam tão fortemente o ideal de inquietação artística como esse cara. Moscou se alinha à proposta de seu anterior sob a mesma perspectiva: confundir para criar. Ambos partem de um objeto real como meio de se construir a ficção. Em Jogo de Cena, o relato; em Moscou, o texto de Tchekhov. Assim, um e outro trabalham a questão da representação como forma de se distanciar de seu ponto de origem e alçar vôos maiores, estratosféricos. Dentre todos os lances de grande poesia, fico com o momento onde a veia de encenação de Coutinho se sobressai, numa atividade proposta pelo diretor da peça para desnudar seus atores diante da câmera; e, logicamente, com o elenco: maculadas pelo tempo, pelas memórias e pela idade, as três irmãs que intitulam a peça dão corpo a pessoas vazias e fazem de mulheres amortecidas pelas rugas figuras apaixonadamente belas.
Talvez a maturidade tenha iluminado para Coutinho uma das inúmeras questões que ficam a partir de seus dois últimos filmes: é possível dissociar cinema e documentário? Ou melhor, é necessário? Godard já dizia que os melhores documentários tendem para a ficção e vice-versa, e a descoberta dessa junção, do produto ainda não decodificado que pode surgir em meio à essa experimentação, é o que legitima a mágica de um ofício em constante mutação. O cinema de Coutinho atesta essa miscibilidade não se limitando ao enquadramento em nenhum dos extremos – por isso, Moscou flutua como uma pluma no moinho de ventos da memória, se recusando a pousar em qualquer chão e a desgrudar de nossas retinas, mesmo depois de acesas as luzes da realidade.