qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

27.7.09


[1:45 PM]

"Minha mãe sempre percebe quando não dormi em casa, e embora naturalmente não fale nada, pois seria absurdo se falasse, por um ou dois dias me olha entre ofendida e hesitante. Sei muito bem que jamais lhe ocorreria contar para Irma, mas de qualquer forma me aborrece a persistência de um direito materno que já não se justifica, e sobretudo que seja eu quem deva aparecer, no fim, com uma caixa de bombons ou uma planta para o pátio, e que o presente simbolize de forma muito precisa e subentendida o fim da ofensa, o retorno à vida diária do filho que ainda mora em casa da mãe."

"Nunca entendi muito Cora, mas daquela vez bobeei mesmo. Na verdade, não me incomodo de não entender as mulheres, a única coisa que vale a pena é que elas gostem da gente. Se estão nervosas, fazem de tudo um problema, bem, mocinha, pronto, me dá um beijo e ponto final. Vê-se que ainda é novinha, vai demorar um bocado até que aprenda a viver nesta profissão maldita, a coitada apareceu esta noite com uma cara estranha e levei meia hora para fazê-la esquecer essas bobagens. Ainda não descobriu a maneira de tratar certos doentes, já aconteceu o mesmo com a velha do 22, mas eu supunha que, a partir de então, tinha aprendido alguma coisa, e agora esse menino vem lhe dar dor de cabeça. Ficamos tomando chimarrão no meu quarto e lá pelas duas da madrugada ela foi dar a injeção no menino, quando voltou estava de mau humor, não queria nada comigo. Fica-lhe bem essa carinha contrariada e tristonha, que aos poucos foi se modificando até que finalmente começou a rir e me contou suas aflições, nessas horas gosto tanto de despi-la e ver que treme um pouco como se sentisse frio."


O Outro Céu e A Sra. Cora , Julio Cortázar.



 


é isso aí, bicho

 

22.7.09


[3:30 AM]

- Você realmente roubou aquela coisa? Por quê?
- Eu precisava sair do chão.


A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que me fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll. As conseqüências da envergadura política da obra fazem com que se mantenha acesa a chama da transgressão, do combate, da explosão que existe dentro de cada jovem. É de se admirar que Antonioni tenha feito o filme aos 58 anos de idade, abandonando qualquer vestígio de senilidade ou conservadorismo que geralmente acomete pessoas com essa bagagem etária.

Acho quase impossível falar de Zabriskie Point sem soar hiperbólico ou repetitivo, mas cada vez que o vejo (essa é a terceira - primeira com o áudio original em inglês e imagem cristalina), é como se a potência das imagens e do discurso acionasse uma descarga de energia e liberdade que me deixa com a cabeça fervendo, como se cada molécula do meu corpo estivesse numa dança descontrolada e feroz. O lugar representa o ponto geográfico mais baixo dos Estados Unidos da América, talvez por isso seja preciso alçar vôos estratosféricos, fugir de uma realidade sufocante e rarefeita para encontrar o sexo nas areias do deserto.

A liberdade existe, ao longe, como uma velha lembrança, envolta por uma nuvem de poeira, bastante desgastada pela burocracia e por outras opressões sociais. O mundo é um caos, mas Antonioni nos convida a explodi-lo. E quando um poeta resolve fazer barulho, é obrigação do universo se calar para ouvi-lo.



 


é isso aí, bicho

 

21.7.09


[8:01 PM]

A história é sensacional. Os protagonistas são Hélio Oiticica, Neville D'Almeida, Brasil, Nova York e um filme marginal de 1971 perdido por aí.

Vi no Daniel.



 


é isso aí, bicho

 

12.7.09


[2:25 AM]

Decepcionante a segunda investida de Luiz Sérgio Person no gênero da comédia (a primeira, Panca de Valente, é pouco comentada e eu ainda não cheguei a assistir). Era natural que, após dirigir duas pedras fundamentais do cinema brasileiro em que a realidade de núcleos sociais urbanos e rurais ganha um verniz de ficção moderna, se criasse uma expectativa para aquela que é conhecida como sua “chanchada psicodélica”. Imaginei um desbunde visual, atrevido e insolente, tal qual a onda de libertação que varreu a juventude em fins dos anos 60. Mas Cassy Jones, o Magnífico Sedutor é tão inofensivo quanto um episódio de Malhação metido à besta.

Person opta pela caretice formalizada, mesmo com Sandra Bréa e Sônia Clara com os peitinhos de fora durante grande parte da projeção. Essa aparente afronta aos bons costumes (eram poucas as que tinham colhão para tirar o sutiã de frente para a câmera sob as olheiras dos censores) é anuviada por um texto que não se dispõe ao entrosamento com a proposta visual apresentada pelo cineasta: é ingênuo, sem problemática, com uma gordura de situações repetidas e inócuas típicas de um aspirante ao Domingos Oliveira de Edu, Coração de Ouro.

Se Sganzerla achou Macunaíma falso, provavelmente deve ter se revoltado com a plasticidade de Cassy Jones. E é sintomático que, a partir de um roteiro que se esquiva de riscos narrativos e outros saltos no escuro, a tentativa de soar moderno visualmente fracasse diante de uma escrita insípida e destemperada. Pena nunca ter encontrado nenhuma declaração do cara sobre esse Person, embora tenha feito elogios públicos a São Paulo S/A (também, como se atrever ao contrário?). Nem as duas melhores passagens do filme – quando Paulo José põe sua virilidade em questão num pesadelo em que o Maracanã lotado grita “Bicha!” para ele; e o diálogo inicial, “ – Mas o que é que você tem que as mulheres não tiram o olho? – É só uma questão de ângulo.”, que dá a falsa impressão de um roteiro esmerado – conseguem salvar o filme. Uma pena. Agora que já foram três, espero ao menos que Panca de Valente nos resgate e xeque mate.



 


é isso aí, bicho

 

9.7.09


[4:13 AM]

BRIAN JONES



† 3 de Julho de 1969




 


é isso aí, bicho

 

2.7.09


[2:40 AM]

Deu na telha de ler umas peças do Nelson Rodrigues esses dias, já que não encontrava o sujeito desde que ganhei meio grau de miopia. Aproveitei o ócio da labuta e A Falecida acabou caindo no meu colo. O teatro na verdade nunca foi a minha, tenho uma certa dificuldade em acompanhar os bambas da dramaturgia estrangeira e acabo tentando uma aproximação através do que foi feito em terras brasileiras - cujo auge se dá na escrita do Nelson. Só li quatro das dezessete peças do cara, mas para além da temática recorrente em seu estilo, que descortina pudores e pisa com força em certos valores, me fascina a capacidade de tratar das mais sórdidas manifestações humanas com a sofisticação textual de um poeta. Um denominador qualquer não suportaria a carga de ousadia pungente que escorre de suas palavras.
É a estética do choque. Jardim elétrico.
A Falecida é um texto onde a violência aparece como força propulsora dos atos dos personagens, subjugando-os a uma crueldade que se torna necessária para que conquistem seu espaço no mundo. Só que a violência não aparece em seu estado bruto, físico, e sim retrabalhada, através de atos implícitos, de falas grosseiras, de pernas cabeludas e de uma teta arrancada. A vulgaridade dos personagens revela um instinto de autodefesa que se constrói por meio do ataque - a velha máxima do futebol. Num país de cínicos, ganha quem for mais desbocado.
É então que a tragédia se anuncia - o título já pressupõe a morte -, mas a intensidade do texto vem é da sujeira congênita ao colóquio, onde os estados mais impuros da natureza humana se transfiguram e mostram que gosto bom é gosto de boca. Do lixo, de ouro, de lata, mas boca. É também uma peça triste, culpada, repleta de demônios com poder de destruição capazes de isolar um homem em pleno Maracanã lotado. O diálogo que capta o espírito do texto e sintetiza o desejo íntimo de Nelson é demais:
PIMENTEL – Que é isso que você está chupando?
ZULMIRA – Drops.
PIMENTEL – Joga fora.
ZULMIRA - Por quê?
PIMENTEL – Porque eu vou te dar um beijo e quero sentir gosto de boca.
(solo de bateria)



 


é isso aí, bicho

 

 


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