qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

27.2.08


[11:27 PM]

Sorte de hoje no Orkut:


Berenice, se segura, nós vamos bater.



 


é isso aí, bicho

 

25.2.08


[3:49 AM]

Sobre o Oscar 2008...


Além do reconhecimento pelo roteiro mais bem escrito, por uma direção madura e pulsante e por um filme igualmente majestoso, não satisfeitos Ethan e Joel Coen ainda fizeram o melhor discurso da noite. Longa vida aos dois irmãos cineastas, e que o rol de obras-primas continue por muito tempo a fazer parte da já estrelada carreira dessas grandes figuras.


Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2007) - * * * * *

Matadores de Velhinha (The Ladykillers, 2004) - * * *

O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty, 2003) - * *

O Homem Que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There, 2001) - * * * *

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?, 2000) - * * *

O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998) - * * *

Fargo (1996) - * * * *

Barton Fink - Delírios de Hollywood (Barton Fink, 1991) - * * * * *

Ajuste Final (Miller’s Crossing, 1990) - * * * * *

Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984) - * * * *




 


é isso aí, bicho

 

22.2.08


[1:17 AM]

Ano passado assisti O Espelho, do Tarkovski, numa mini-retrospectiva que o cinema da faculdade fez em respeito ao 75º ano do nascimento do cineasta soviético. Era meio-dia, tava um calor fora do normal do lado de fora do cinema, eu não comia nada desde às 9h e mesmo assim decidi ficar até o final. Não tenho lembranças muito nítidas sobre o filme, provavelmente não saberia falar sobre nenhuma passagem em especial com um grau razoável de convicção. Mas uma cena eu não esqueço: num lindo plano aberto, em meio a uma floresta inóspita, uma casa de campo aparece incendiada, com chamas por todos os lados, em viés de se tornar ruína. Sempre achei que o fogo, quando bem fotografado, alcança uma beleza incomum em comparação com os outros elementos da natureza, ainda mais numa tela de cinema. Um dos meus desejos cinematográficos secretos é assistir Zabriskie Point num telão imenso, principalmente por aquele final alucinante.

E é justamente uma seqüência envolvendo combustão a que mais me impressionou em Sangue Negro, o filme do Paul Thomas Anderson que acabou de abocanhar o prêmio de direção em Berlim. Um jato de petróleo, cercado por uma torre de madeira, brota da terra e atinge uma altura de uns cem metros. Não demora para que ele entre em chamas e fique incandescente, para desespero da população, delírio do prospector interpretado por Day-Lewis e beleza para os meus olhos. Servindo-se de um contraste intenso entre a escuridão da noite e o brilho crepitante, a câmera de PTA explora com louvor o sombreado para retirar dele toda a densidade necessária à cena. A precisa execução da seqüência e todo aquele fogo jorrando da terra me deixaram pregados na cadeira, é para mim o grande momento do filme.

Que não deixa de ser bom, mas muito menos do que eu esperava. E principalmente devido à escolha do desfecho, onde toda a construção climática e narrativa erguida até então é abandonada em função de uma conclusão desnecessária e sem graça. A meticulosa disposição do personagem implica uma rigidez que se intensifica a todo momento, e é ressaltando as peculiaridades de um homem ambicioso e hostil que PTA ergue a linha de sua narrativa. É mais um filme de modelamento de personalidade do que qualquer tipo de épico sobre o surgimento de um império, como dizem por aí. Estamos ali observando as relações que um homem ganancioso, movido a cifras, trava com os que o rodeiam, de empregados até o próprio filho. E justamente quando foca suas pretensões na elaboração de seres fictícios é que o trabalho do cineasta realmente consegue me fascinar, mais até do que no próprio jogo interativo onde os confronta. Embriagado de Amor é o filme dele que eu mais gosto - talvez seja um dos mais bonitos da década -, e grande parte por causa do dimensionamento que dá ao personagem do Adam Sandler.

E, neste caso, estamos muito bem servidos de Daniel Day-Lewis. Sem dúvida há uma coerência bem afiada entre os propósitos de diretor e ator, que possibilita ao inglês essa encarnação possessa da figura que personifica - um pouco moldado no açougueiro de Scorsese, mas muito mais rico em minúcias e expressões corporais. Trata-se de uma atuação maiúscula de um ator essencial ao cinema. Pena que não seja suficiente em se tratando de um filme de tamanha expressividade, mas que insiste em se comportar de maneira tão pobre em seu desfecho que acaba por se ofuscar. Num duelo que destoa de todo o restante de sua estrutura, pelo excesso e pela inadequação, há a impressão de que o objetivo era beirar a paródia, ou simplesmente radicalizar a relação entre os personagens de maneira drástica. Faltou maturidade para um final mais trabalhado e significativo, mas depois de um pinto de plástico e uma chuva de sapos, nada mais me surpreende. Oscar pros Coen.


Sangue Negro (There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson /2007)



 


é isso aí, bicho

 

21.2.08


[2:38 AM]


Recomendo a todos a delícia da Carice van Houten, protagonista do espetacular filme do Verhoeven, A Espiã. O cara não pintava nas telas brasileiras há seis anos, desde O Homem Sem Sombra - que eu gosto até certo ponto, depois a trama ganha um rumo que não me agrada o suficiente. Mas, em seu novo filme, Verhoeven aparece em ótima forma, com uma narrativa que emula grandes filmes dos anos 50. A história é muito bem amarrada, há uma inteligência arguta na elaboração das situações, encenadas em ritmo acelerado e com alta sofisticação visual. O filme ganha força por experimentar ao máximo as possibilidades de cada circunstância, seja opondo diferentes personalidades ou grupos ligados diretamente à política de Hitler, através de conflitos internos (em certo momento, a personagem de Carice diz: "Nunca achei que poderia sentir medo por estar livre.") e até mesmo quando investe em reviravoltas, todas elas muito bem projetadas, por sinal.

Lembro bem, quando, aos nove ou dez anos de idade, recém-assinante de HBO, vi pela primeira vez duas mulheres se beijando, na casa da minha vó. E sabemos que duas lindas mulheres se beijando no final de um filme para um moleque de 10 anos é melhor que MegaSena, disparado. A cena estava em Showgirls, de 1995, e eu, naturalmente, mal me importei com a história, o que me interessava ali eram as imagens. A partir desse filme, Gina Gershon e Elizabeth Berkeley estrearam na minha coleção de musas e de lá não saíram. É impressionante o domínio do homem em explorar com a câmera a beleza das mulheres em cena, principalmente essa loira linda aí da foto. É interessante também como o filme bebe no melhor de Hitchcock para que haja o desenvolvimento do terceiro ato, uma inspiração que certamente deixaria o mestre barrigudo orgulhoso. Pensando bem, se juntarmos as peças é fácil perceber o porquê de os momentos de maior inspiração de Verhoeven acontecerem na Holanda. É tão óbvio quanto dois mais dois são quatro.



A Espiã (Zwartboek, Paul Verhoeven /2006)



 


é isso aí, bicho

 

18.2.08


[1:46 PM]


Paradoxalmente, os créditos iniciais já dão uma idéia da grandeza que qualifica o filme de Ethan e Joel Coen. A tela preta condensa apenas o título original, em letras comuns, sem qualquer menção aos cineastas ou outro membro da equipe técnica responsável pela realização. A proposta dos irmãos em criar uma atmosfera densa antecede mesmo as primeiras imagens projetadas na tela. Antes de elaborar qualquer opinião concreta a respeito do filme dos Coen, preciso revê-lo para que seja devidamente digerido, pois ele não permite um desvinculamento tão claro e acessível por parte de um espectador mais atento. Mas uma coisa é certa: a maturidade narrativa calcada numa concisão que chega a impressionar é o grande trunfo de Onde os Fracos Não Têm Vez. Atenuado o estupor inicial que o filme causa, duas perguntas me vieram à mente quase instantaneamente: como transpor para a tela uma obra literária de relevância (o romance de Cormac McCarthy parece ter sido escrito para os irmãos, tamanha a identificação dos propósitos) partindo de uma fidelidade quase contratual com as linhas do autor? E mais: de que maneira se engendra um filme onde o silêncio possa reverberar tão intensamente quanto o mais decisivo dos diálogos?

Visconti foi corajoso ao adentrar o hermético universo de Thomas Mann e transpô-lo para a tela fundamentando a essência do escritor alemão sobretudo no campo sensitivo das imagens. É uma opção arriscada, mas talvez Morte em Veneza, o filme, encontre o maior de seus predicados justamente nessa escolha. E, amparados por uma trama que carrega em cada fotograma uma substancial quantidade de descrença e tensão, os irmãos construíram uma narrativa amarga que trata da violência a partir de uma desilusão coletiva - a personagem de Tommy Lee Jones representa bem o ocaso de uma nação. Já não há medidas para justificar as razões que movem todo o apocalipse no qual a trama se baseia. Se McCarthy escreve que “as pessoas desse país são difíceis de lidar”, o correspondente imagético delineado por Joel e Ethan corrobora essa teoria através de passagens silenciosas, frias, que dizem mais a respeito das personalidades que vemos na tela do que qualquer outra definição cabível.

Se a violência não faz sentido, qual o ideal motivador de quem a pratica? Seria uma característica congênita, inscrita no âmago do homem e do qual é impossível de se dissociar? Há, no filme, a lógica de que a principal explicação para os atos de barbárie cometidos pelo assassino de Javier Bardem se justifique através de uma sucessão de escolhas por parte da vítima. Para ele, não há pretexto, matar é uma opção que supostamente cabe ao destino configurar (a moeda exemplifica bem essa conjectura). Mas a ambigüidade presente no texto desmonta a possibilidade de uma formulação hipotética quando ele é confrontado a escolher pela morte de uma vítima. E a inconclusão da cena, seguida por um ato de extrema responsabilidade do acaso, mistura ainda mais a cabeça do espectador. Corajosa é também a opção de concluir a história com uma elipse que mais parece uma navalhada no pescoço, um desfecho ideal para um filme desconstrutivo sobre a decadência de um povo.

Reve-lo-ei, com o perdão da mesóclise, ainda essa semana, e quem sabe então possa me esclarecer melhor em relação às idéias colocadas em pauta. Mas, de antemão, uma frase é crucial para se avaliar o filme e toda a tônica adotada pelos irmãos, e ela parte do sábio histórico vocabular de Lee Jones: “A idade simplifica o homem”. Se a afirmativa realmente procede, só poderei confirmar dentro de muitos anos, mas que certamente ela se encaixa com perfeição na esplêndida síntese visual e argumentativa dos Coen, isso não há como negar.


Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, Ethan & Joel Coen /2007)



 


é isso aí, bicho

 

12.2.08


[1:49 AM]


O conjunto de códigos que Tim Burton usa para caracterizar seus filmes de acordo com certas peculiaridades que lhe configuram um estilo bem próprio de filmar é facilmente identificado logo nos primeiros minutos de Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet. O universo soturno, com ares góticos e sobrecarregado de tons frios está intrinsecamente ligado à formação característica dos personagens que ilustram suas histórias. Em seus filmes, muitas vezes o deslocamento e a solidão partem de um processo traumatizante posteriormente revertido em sentimentos hostis que não condizem com o verdadeiro âmago dos personagens, como o Willy Wonka da fantástica fábrica de você-sabe-o-quê. É uma perspectiva bastante pessimista avaliar o comportamento humano através dessa trágica conclusão, mas sempre rendeu a Burton (e não só a ele) a garantia de ótimas produções.

Se toda a atmosfera sombria é construída para dar uma base sustentável na inclusão de dois personagens com caracteres igualmente febris, tal distinção é parcialmente destituída de força quando Johnny Depp abre a boca pela primeira vez em cena e... canta! Mas isso não é encargo algum para quem interpretou o filho de Deus (e contracenou com o Ele!) na série Piratas do Caribe, cantar é só mais um jeito de mandar a tristeza embora. Lembro que considerei como um dos maiores acertos do cineasta na refilmagem do clássico dos chocolates, em 2005, justamente as cenas individuais protagonizadas pelos Oompa Loompas, por serem meras colagens musicais inseridas no meio da história e que em momento algum assumem a função de catalisador narrativo. Neste caso, Burton abriu mão de quase a totalidade dos diálogos que não fossem musicados para encenar uma história de amor com pesados toques de morbidez e sob as líricas de Stephen Sondheim. O resultado foi extremamente positivo. E não deixa de ser curiosa essa reinvenção a qual o cineasta se propõe a cada projeto, dentro das possíveis limitações de seu território habitual, sempre incorporando um gênero ao seu próprio modo de filmar – e não o contrário, já que seria impensável lidarmos com um corte de garganta tão profundo e literal numa disposição de idéias pertinentes a um filme como esse que não estivesse sob a direção de Tim Burton.

Enquanto nos entrega seu mais genuíno e belo filme de horror, o cineasta costura de maneira impecável a musicalidade de Sondheim, a densidade que os atores imprimem a seus personagens (Depp está mais sintético que nunca, sua atuação sustenta tão bem a fantasia que encena que todo o brilhantismo se concentra nos detalhes, todos eles mínimos) e um aparato técnico devidamente sincronizado com suas pretensões. A única ressalva se dá em relação ao desfecho, concluído com uma pressa que até então era ignorada pelos dois atos que o antecedem. A precipitação com que se encerra revisita também a angústia latente do amor impossível presente em outras obras do diretor, como em Edward Mãos-de-Tesoura, e talvez então encontre aí sua justificativa. De qualquer forma, é com provável certeza o que de melhor o homem produziu desde Ed Wood - e isso significa muito, já que a homenagem ao pior diretor de todos os tempos continua imbatível no posto de obra-prima absoluta.




Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet St., Tim Burton /2007)



 


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9.2.08


[1:07 AM]

Depois de uns dias excursionando por cidades litorâneas vazias e longe da recorrente agitação baiana, este que vos escreve volta a falar de cinema para deixar registrado o que de melhor aconteceu nas telas brasileiras no já longínquo ano que passou. À exceção de Clint Eastwood, todos os outros diretores me eram inéditos na tela grande, tendo visto alguns de seus filmes apenas na televisão ou em DVD. E o impacto de adentrar no inconstante e hermético universo de David Lynch, nas primorosas construções espaciais de Resnais e nas lembranças e reflexões de João Moreira Salles dentro de uma sala de cinema certamente me deixou ainda mais fascinado por essa arte pela qual tenho tanto apreço. A novidade (e também a surpresa mais bem-vinda do ano) fica por conta de James Gray, que com seu Os Donos da Noite construiu uma narrativa densa, amparada em personagens bem dimensionados dentro das possibilidades que os vários eixos da trama tratam de unir habilmente como que subvertendo as regras desse jogo. Infelizmente não vi a tempo alguns filmes que despertaram grande interesse e que provavelmente poderiam ocupar seus assentos na lista abaixo, como Viagem a Darjeeling, Maria Antonieta, Em Busca da Vida e o último do Brisseau, que eu só não assisti inteiro por pura preguiça. Então fica assim a minha lista dos melhores filmes de 2007:




1. Os Donos da Noite, de James Gray

2. Maria, de Abel Ferrara

3. Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais

4. Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood

5. Santiago, de João Moreira Salles

6. Possuídos, de William Friedkin

7. Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho

8. O Hospedeiro, de Bong Joo-ho

9.O Homem Duplo, de Richard Linklater

10. Império dos Sonhos, de David Lynch



E, como não poderia deixar de ser, os famosos “quase lá”: (fora da ordem)

Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca (e com Tainá Müller, o que não é pouca coisa)

A Conquista da Honra, do velho Eastwood

Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim

Apocalypto, de Mel Gibson

Zodíaco, de David Fincher


As secreções, excreções e os desatinos ficam por conta de:

Babel, de Alejandro González Iñarritu

Scoop, de Woody Allen

Borat, de Larry Charles

A Via Láctea, de Lina Chamie

Transylvania, de Tony Gatlif

E 2008 já começa com duas pedradas das grandes: o duelo entre os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson promete, no mínimo, dois filmes instigantes e muitas estatuetas douradas. Que vença o melhor!




 


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