qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

21.5.08


[3:36 PM]




"A valorização do cineasta americano James Gray por Cannes (seu Os Donos da Noite competiu ano passado) parece fechar-se num círculo dos mais redondos com a apresentação em competição de Two Lovers, crônica de amor delicada como pouca coisa, e que deverá se alojar na consciência de muitos quando ganhar o mundo ainda esse ano. O mais curioso nesse filme é o quanto ele é americano na sua essência, ao mesmo tempo em que revela-se peça tão rara na produção de lá, especialmente na mais bela força do filme: a naturalidade sentimental dos seus personagens

Típico 'estudo de personagem' que dialoga com outros na competição esse ano (o argentino Leonera, o belga Le Silence de Lorna), onde o filme não te entrega instruções completas já no início para entender quem ele é (cena de abertura é apenas uma informação, e não uma bula), Reginald revela-se aos poucos um personagem masculino notável, com visão diferenciada de mundo e uma melancolia amorosa que define quem ele é através da sua relação com mulheres. Porque é tão raro ver na vasta produção americana um homem de conduta normal, tentando lidar seja honesta, ou instintivamente, com seus problemas pouco, ou nada, espetaculares?"

***

"Gray monta um carrossel de afetos truncados e dolorosos (que, aliás, dá múltiplos significados ao título do filme – especialmente no original em que lovers pode se referir a homens e mulheres), de uma série de personagens que se atrai e repele sempre no nível da pele, da emoção mais imediata, impulsiva, necessária mesmo. No entanto, há bem mais no filme do que simplesmente um enorme ator, mesmo que isso não seja pouca coisa. Há, antes de tudo, todo um elenco impressionante e um diretor que, por mais que tenha dito na coletiva que seu grande prazer no cinema é o trabalho com os atores, faz do seu trabalho com a câmera e o som a prova de que um grande cinema, clássico ou não, se manifesta mesmo ao passar muito além das questões possíveis a serem discutidas a partir de temas ou comportamentos de personagens. O cinema se manifesta é na tela, com a força dos claros/escuros, das composições e tensões de quadro e com a montagem exemplar que James Gray demonstra a cada seqüência deste Two Lovers. Quem duvidar, que veja e reveja o diálogo entre Phoenix e Gwyneth Paltrow na porta do nightclub. Aula de cinema é pouco."

Diretamente do Festival de Cannes, Kleber Mendonça Filho e Eduardo Valente, respectivamente, numa primeira impressão sobre Two Lovers, novo filme do americano James Gray. Além da boa recepção por parte da crítica, há a grande notícia de que a Play Arte comprou os direitos de exibição da obra e pretende lançá-la nos cinemas nacionais ao final do segundo semestre. Em outras palavras, filme do ano à vista.



 


é isso aí, bicho

 

18.5.08


[4:08 PM]

4th Time Around não existe



 


é isso aí, bicho

 

16.5.08


[6:13 PM]


“As letras em Blonde on Blonde estão entre as melhores que Bob jamais viria a escrever – poesia, como o professor Christopher Ricks disse, que é 'sob vários aspectos extraordinária e insinuantemente verdadeira'. A música era perfeitamente adequada à letra. Bob disse que essa música era o mais próximo que ele já chegara 'daquele som rarefeito, volátil' que ele tinha em sua cabeça. I Want You e Temporary Like Achilles eram magnificamente sexuais. A exuberância de Obviously Five Believers era contagiosa: Bob terminou o último verso da música gemendo; Robertson fez um solo rasgado; a gaita de McCoy chorou. Eles seguiram a música como um vagão de trem segue até o final da linha. Visions of Johanna era uma cornucópia de imagens ricamente acondicionadas. O verso ‘In this room the heat pipes just cough’ evocava perfeitamente as primeiras horas da manhã em quartos de velhos hotéis, como o Chelsea, onde ele morava com Sara. Pledging My Time soava como ficar acordado até tarde. ‘Ninguém jamais captou o som de 3h da madrugada melhor do que aquele álbum’, diz Al Kooper. ‘Ninguém, nem mesmo Sinatra, faz isso tão bem’.

Echo Helstrom achou que o título do álbum, Blonde on Blonde, poderia ser uma referência a seu cabelo louro e sua pele branca. Outros mencionam a beleza oxigenada de Edie Sedgwick. A verdade é que Bob chegou ao título do álbum do mesmo modo como chegou aos títulos excêntricos das músicas. ‘Os títulos pintaram durante a mixagem’, diz Kooper. ‘Enquanto estavam mixando, a gente ficou sentado por ali, e Bob Johnston entrou e disse ‘Como você quer chamar esta?’ E Bob foi dizendo os títulos um de cada vez, ali mesmo. Associação livre e tolice, tenho certeza, foram componentes muito importantes.’”




 


é isso aí, bicho

 

14.5.08


[10:54 PM]


Começou hoje o evento de cinema mais importante do mundo, o Festival de Cannes, que é também vitrine para os filmes que farão as nossas cabeças a partir do segundo semestre de 2008. A seleção de filmes que concorrem ao prêmio principal esse ano é incrível. Conferi agora há pouco os números da Mega-Sena e infelizmente estou postando aqui mais uma vez, do contrário já estaria marcando presença nas salas do balneário francês, de olhos vidrados na tela. Simplesmente passarão por lá os novos de gente como Clint Eastwood, Philipe Garrel, os irmãos Dardenne (que já levaram duas vezes a menina dos olhos do festival), o china Jia Zhang-ke, Arnaud Desplechin (que só por ter feito aquela seqüência no museu em Reis e Rainha já é dono de muitos méritos), sem contar o novo do Walter Salles Jr. e do (insira muitas exclamações aqui) grande James Gray. Para abrir a competição e, de quebra, concorrer à Palma de Ouro, hoje foi exibido o Ensaio Sobre a Cegueira, do brazuca Fernando Meirelles, o homem que se atreveu a adaptar o difícil e frustrante romance do José Saramago. Lendo as primeiras impressões da crítica, vi que o filme do Meirelles passou longe de ser uma unanimidade, e tenho ressalvas em saber se era a escolha ideal para inaugurar o festival.

Aliás, não confio muito nesse papo de palmas ao fim da sessão, acho um termômetro dos mais picaretas e que não valida em absolutamente nada o hipotético potencial ou fracasso de um filme. Quando vi Império dos Sonhos, por exemplo, no último festival do Rio, 10% da platéia que lotava o Espaço Unibanco aplaudiu de maneira feérica a viagem do Lynch, enquanto eu, afundado na poltrona, não conseguia nem abrir a boca direito, quanto mais mexer as mãos. O Ensaio Sobre a Cegueira foi recebido com uma suposta indiferença em sua primeira exibição, hoje, em Cannes. E mais, diante dessa concorrência de peso, que ainda conta com a argentina Lucrecia Martel e seu A Mulher Sem Cabeça (um título que, no mínimo, assusta), penso que as chances para Meirelles se sagrar premiado são ínfimas, quiçá inexistentes. Mas depois do que aconteceu com Tropa de Elite, em Berlim, não coloco minha mão no fogo por mais nada. Ainda em busca da Palma, Cannes conta com a primeira incursão do roteirista Charlie Kaufman por trás das câmeras e com os dois novos filmes do Soderbergh, ambos totalizando quatro horas e traçando um painel sobre o guerrilheiro argentino Che Lynch Guevara (sabiam que o cara é parente do homem?). Muita preguiça de Soderbergh, lembro mais do meu almoço de 3 meses atrás do que do último filme que vi do cara.

Esse cartaz aí em cima, como pode-se perceber, é de 1990, ano em que o júri premiou Coração Selvagem, do Lynch (ó ele aí, de novo), com a Palma de Ouro de melhor filme. Aos interessados em acompanhar os desenlaces e a repercussão do Festival, dois links com impressões de grande valia:

Revista Cinética

Cinemascópio

Como não estaremos lá, em compensação poderemos ver o novo Indiana Jones já no começo da próxima semana, devido à maciça campanha de pré-estréias que o filme vem ganhando em sua estratégia de divulgação. Tenho fé que Spielberg fez um filme à altura do personagem, além do que vai ser ótimo ouvir o tema do John Williams novamente, chicote e chapéu na mão, dessa vez numa sala de cinema. E desde já dou como iniciada a campanha “Samuel Cannes 2009. Vamo lá, né pessoal, chega de Vitória Cine Vídeo, hehe.




 


é isso aí, bicho

 

12.5.08


[2:53 AM]

Não são muitos os filmes que despertam em mim o desejo de pular para trás das câmeras e com isso dar mais um largo passo em direção ao suicídio profissional. Gosto de cinema, é um dos assuntos sobre os quais mais gosto de conversar, vejo filmes e freqüento salas de cinema mais por necessidade física do que por qualquer outra síndrome maluca ou apenas gosto pessoal, mas não sei bem se tenho vocação (e muito menos culhões) para comandar um projeto autoral. Às vezes enquanto ouço uma música ou leio um diálogo num livro argentino ou até mesmo quando presencio um acontecimento cotidiano, fico horas imaginando o impacto que tal transposição alcançaria no cinema, mesmo que fosse só em mim. Caminhadas pela cidade são um perigo, no percurso de 20 minutos da porta de casa à faculdade viajo deliciosamente em diversas cenas desconexas que não fazem o mínimo sentido a não ser pela beleza estética que carregam consigo. Outras são exatamente o inverso, principalmente quando eu lembro da Gena Rowlands conversando com o psiquiatra e sendo evasiva no que diz respeito à sua vida sexual, ainda no início de Amantes. A expressão de desencantamento, a mão colocando desiludidamente os cabelos para trás, as rugas que contornam o olhar perdido na tradução e a fumaça do cigarro subindo num espiral disperso, tudo isso é também algo que já encontrei em algum lugar por aqui e que sempre me faz bem.

Os poucos filmes que me fariam adotar uma postura de loucura total em relação à vida neste exato momento estão longe de ser os melhores que já vi, mas eu morreria feliz se tivesse dirigido um segmento qualquer de um filme do Russ Meyer ou só a seqüência final de Zabriskie Point. Aliás, Antonioni é sacanagem porque é um cinema tão pessoal e embriagante que qualquer palavra me escapa, fica a reverência. Também porque tenho plena noção dos meus limites potenciais enquanto homem e, por mais que os faroestes do Leone descarreguem em mim uma carga de energia que por pouco não causam um curto-circuito no cérebro, sei que jamais teria capacidade para realizar nem que seja uma mímese cuspida e escarrada da mais insignificante das cenas de um filme qualquer do cara.

Mas desde o dia em que eu fui na casa do Jarbas, lá no Vila Bretas, buscar uma cópia do filme da Sofia Coppola porque ele não iria estrear nos cinemas da cidade, há cinco anos, eu sempre soube que ali tinha alguma coisa que realmente fazia sentido. Jim Reid, porra, eu não precisava de Just Like Honey ali não, cara, você podia muito bem ter pegado sua música e ido embora pra casa, quieto e sem reclamar. O olho enche, não tem jeito, sei que outras pessoas conseguem facilmente, mas todas as vezes que ouço o Psychocandy não passo da primeira música e tenho mil motivos para isso. Por tudo que eu estava passando na época, pelas amizades em estágio minguante e pelos porres homéricos com loló, galões de vinho e cervejas; pelas viagens interestaduais de última hora e também pela quase reprovação aos 45 do segundo tempo em física; toda essa esculhambação misturada com a sensação de despedaçamento que é ter um amor adolescente impossível aos 16 anos e pensar nela o dia inteiro, como sempre acontece, depois de descobrir o Loveless do My Bloody Valentine e principalmente por ter entrado no segmento onde as coisas começam a ficar perdidas e tudo o que resta é tentar voltar ao encontro delas, de qualquer maneira, tem horas que sinto vontade de descartar todos aqueles dezesseis anos e com eles essas hipóteses acima, meter uma vírgula no espaço e acreditar que só pela expressão facial do Bill Murray, em qualquer seqüência que seja, é Encontros e Desencontros o filme que eu queria ter feito.





 


é isso aí, bicho

 

4.5.08


[1:27 AM]

Filmes de Abril

De zero a cinco estrelas, revisões em itálico.


1. Black Sabbath (I Tre Volti Della Paura, Mario Bava /1963) - * * * *

2. Angel (François Ozon /2007) - *

3. Disque M Para Matar (Dial M For Murder, Alfred Hitchcock /1954) - * * *

4. Copacabana Mon Amour (Rogério Sganzerla /1970) - * * * * *

5. Alma Corsária (Carlos Reichenbach /1994) - * * * *

6. Sem Essa, Aranha (Rogério Sganzerla /1970) - * * * * *

7. Faster Pussycat, Kill! Kill! (Russ Meyer /1966) - * * * *

8. Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade /1969) - * * * *

9. A Conversação (The Conversation, Francis Ford Coppola /1974) - * * * * *

10. Rififi (Du Rififi Chez les Hommes, Jules Dassin /1955) - * * * * *

11. The Rolling Stones - Shine a Light (Martin Scorsese /2008) - * * * *

12. O Enigma de Outro Mundo (The Thing, John Carpenter /1982) - * * * *

13. O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, Jean-Luc Godard /1963) - * * *

14. Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, Richard Linklater /1993) - * * * *

15. A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, Daniel Myrick & Eduardo Sánchez /1999) - * * * * *

16. Os Tempos do Lobo (Les Temps du Loup, Michael Haneke /2003) - * * *

17. Em Busca da Vida (Sanxia Haoren, Jia Zhang-ke /2006) - * * * * *

18. A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, Daniel Myrick & Eduardo Sánchez /1999) - * * * * *

19. O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte /1963) - * * *

20. Paranoid Park (Gus Van Sant /2007) - * * * * *

21. Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, Wong Kar-Wai /2007) - * *

22. Corrida Sem Fim (Two-Lane Blacktop, Monte Hellman /1971) - * * *




 


é isso aí, bicho

 

1.5.08


[10:15 PM]

Homem de Ferro segura as pontas até o momento em que Jon Favreau, mais conhecido como “Quem?”, resolve brincar de Transformers e não percebe que precisa comer muito arroz e feijão antes de filmar cenas de ação. Ironicamente, o filme se sai melhor quando investe no lado humano do homem que era para ser totalmente de ferro, e grande parte dessa contradição é culpa exclusiva da interpretação debochada de Robert Downey Jr., desfilando com a eficiência que já lhe é habitual. Difícil imaginar outro ator para o papel principal, mesmo que em vários momentos o cara passe a impressão de que está no piloto automático, atuando com o mínimo esforço. A quebra de expectativas que acontece em várias seqüências (e que atinge o ápice na transformação rápida de Jeff Lebowski num vilão robótico de terceira dimensão) confere uma cadência humorística desgastada à narrativa, mas alcança o objetivo de disfarçar deficiências que só um cara chato como eu continua a procurar insistentemente em filmes do gênero. Dentro dos seus códigos de verossimilhança, é um filme que usa muito bem os controles que tem em mãos, e posso até achar que se trata de uma boa adaptação dos quadrinhos, mas entrei e saí no cinema como se em duas horas nada tivesse acontecido.

***

Wong Kar-Wai quando vai à sorveteria escolhe o sorvete mais sem graça, talvez de creme, para voltar ao tempos de infância e se deliciar no balcão dos confeitos, dando cor e vivacidade à sua sobremesa com milhares de confetes, jujubas, coberturas, granulados, castanhas e tudo o mais que estiver à disposição. Um Beijo Roubado é isso, um filme desenvolvido exclusivamente em função dos delírios visuais do cineasta e oco por dentro, com personagens mal desenvolvidos e que se dissolvem ao primeiro sinal de vento. Começa aos trancos e barrancos, com situações constrangedoras (o que é Jude Law e Norah Jones conversando com papel no nariz? Eu hein), e melhora progressivamente até alcançar o belo desfecho, que tenta com insucesso convencer o espectador de que toda aquela encenação foi feita para se chegar na bonita cena do bar. O destaque mesmo fica por conta da entrada de Rachel Weisz em cena, ao som de “Try a Little Tenderness”, maravilhosa música do Otis Redding.


Homem de Ferro (Iron Man, Jon Favreau /2008)

Um Beijo Roubado(My Blueberry Nights, Wong Kar-Wai /2007)




 


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