qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

31.1.09


[2:22 AM]

Rosane Mulholland está tão gostosa em Falsa Loura que até agora eu mal consegui me concentrar o suficiente para pensar sobre o filme. Como não dispenso uma mesóclise, revê-lo-ei em muito breve, mas já de antemão dá pra dizer que o cinema barroco do Reichenbach apresenta personagens tão envolventes e bem trabalhados dentro do contexto de Brasil atual, unindo corajosamente o A ao Z na mesma linha de ação, que é praticamente impossível não olhar para seus filmes com uma intensa carga de admiração capaz de preservá-los num lugar único e exclusivo dentro do panorama nacional (através de uma posição conciliatória de interesses também defendida por alguns cineastas da Boca), muito distante de qualquer tentativa de concessão de princípios e ao mesmo tempo igualmente longe dos olhos do grande público. Até agora, parece ser do mesmo nível de Garotas do ABC, mas há grandes chances de subir no conceito. E que plano final é aquele, hein?



 


é isso aí, bicho

 

29.1.09


[11:18 PM]

"Na verdade, eu tô adorando esse show"


E o Little Joy tocando This Time Tomorrow, do Kinks, no show de ontem em São Paulo? Mesmo com as várias opiniões entusiasmadas de quem já viu, será que vale a pena desembolsar 60 pilas por menos de uma hora de som dos caras no Circo? Sei não, esse preço cheira tanto a sacanagem e oportunismo que eu tô torcendo para que o Amarante ou o Fabrizio cantem a bola e agendem outra data, em um lugar menor, aqui no Rio (a exemplo do que fizeram na gringa). Caso contrário, prefiro rever Amantes Constantes enquanto espero pelo Radiohead - até por não ter me entusiasmado com o Little Joy em disco e porque, finalmente, os Strokes anunciaram a boa para 2009.




 


é isso aí, bicho

 



[3:28 PM]

Taí o catálogo da coleção Cinema Marginal que a Lume pretende lançar ao longo do ano:

Bang Bang (Andrea Tonnaci, 1971, 35 mm, P&B, 93 min.)
Blá Blá Blá (Andréa Tonacci, 1968, 16 mm, P&B, 30 min.)

Sem Essa, Aranha (Rogério Sganzerla, 1970, 35 mm, Cor, 102 min.)
A Miss e o Dinossauro (Helena Ignez, 2005, Super 8, Cor, 15 min.)

Lilian M: Relatório Confidencial (Carlos Reichenbach, 1975, 35 mm, Cor, 120 min.) **
Essa Rua Tão Augusta (Carlos Reichenbach, 1969, 35 mm, P&B, 11 min.)

Meteorango Kid, o Herói Intergaláctico (André Luiz de Oliveira, 1969, 35 mm, P&B, 85 min.)
Doce Amargo (André Luiz de Oliveira, 1968, 16 mm, P&B, 20 min.)

Hitler 3º Mundo (José Agrippino de Paula, 1968, 16 mm, P&B, 90 min.) **
Danças na África (Maria Esther, 1978, Super 8, Cor, 40 min.) **
Céu Sobre Água (José Agrippino de Paula, 1978, Super 8, Cor, 20 min.) **

Os Monstros de Babaloo (Elyseu Visconti, 1970, 35 mm, P&B, 120 min.)
Ticumbi (Elyseu Visconti, 1978, 35 mm, Cor, 10 min.)

Orgia ou O Homem que Deu Cria (João Silvério Trevisan, 1970, 35 mm, P&B, 90 min.) **
Contestação (João Silvério Trevisan, 1969, 35 mm, P&B, 15 min.) **

O Pornógrafo (João Callegaro, 1970, 35 mm, P&B, 88 min.)

O Insígne Ficante (Jairo Ferreira, 1980, Super 8, Cor, 60 min.)

Perdidos e Malditos (Geraldo Veloso, 1970, 35 mm, P&B, 75 min.) **
Toda a Memória das Minas (Geraldo Veloso, 1978,16 mm, Cor,18 min.) **

A Margem (Ozualdo R. Candeias, 1967, 35 mm, P&B, 96 min.) **
Zézero (Ozualdo R. Candeias, 1974, 35 mm, P&B, 31 min.) **
Festa na Boca (Ozualdo R. Candeias, 1976, 35 mm, P&B, 12 min.) **

Caveira My Friend (Álvaro Guimarães, 1970, 35 mm, P&B, 86 min.) **

O Vampiro da Cinemateca (Jairo Ferreira, 1977, Super-8, Cor, 64 min.) **
O Guru e os Guris (Jairo Ferreira, 1973, 35 mm, P&B, 11 min.) **

Só o fino da coisa, e eles ainda prometem acrescentar alguns outros títulos à lista. Acredito que cada bloco desse represente um DVD, com um filme e alguns curtas, mas não é nada certo, já que quem fez essa distinção fui eu, por livre e espontânea curiosidade. Os asteriscos sinalizam aqueles pelos quais eu nutro grandes expectativas e sempre quis assistir, como o filme do Álvaro Guimarães (o cara que transformou Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade em Baby Consuelo, no final dos anos 60) e o do Zé Agrippino, que finalmente verá a luz do dia. Junto dele vem o curta de sua mulher, Maria Esther Stockler, filmado na África, muito provavelmente durante o período em que os dois viveram lá, em meados da década de 70. Panamérica é foda, uma descrição alucinada de uma viagem iconoclasta e tipicamente tropicalista de LSD. Tive um professor na faculdade de Letras que disse ter comprado o livro por 150 reais - eu paguei míseros $10, uma simpática arara, por uma reedição em perfeito estado. Tá vendo o porquê de eu não ter rendido naquele lugar?



 


é isso aí, bicho

 

27.1.09


[3:00 PM]


Consegui.

Não sei o que aconteceu: se foi a cidra de maçã que eu bebi na virada do ano, na casa da Tamara; ou a moeda que eu dei pro cara que toca "Asa Branca" no violino, em frente a livraria; se foram as cervejas que eu paguei pra desconhecidos falastrões no boteco ou se foi a ligação que eu fiz pra minha vó no primeiro dia do ano, mas 2009 tá me fazendo tão bem que eu tô pensando seriamente em sacrificar uma virgem evangélica na floresta da Tijuca como forma de agradecimento aos deuses mineiros. Cidade, casa e emprego, tudo tão novo, tão diferente e igualmente tão excitante, que a única peça em falta no quebra-cabeça louco da minha vida começa a aparecer lentamente, ainda meio enevoada, na penumbra, como um legítimo fantasma da eletricidade. Mas eu não tenho pressa.

E agora, no meio de tantas mulheres, tá ali meu nome, firme e forte, como forma de sedimentar essa atitude meio suicida (como todas as escolhas difícies - pensem em Sofia, coitada) de largar tudo e virar outro, um que eu nem sei quem é, e que dificilmente você vai reconhecer quando passar por você.



 


é isso aí, bicho

 

25.1.09


[11:03 PM]



Agora não restam dúvidas: David Fincher foi mordido por algum mosquito tropical de veneno entorpecente enquanto filmava Zodíaco, em 2006. Só pode. Essa sequência aí em cima justifica toda a onda de exaltação que cerca o filme: a câmera estática e a construção espacial preenchida por uma agressividade progressiva, latente, contida em uma cápsula de tensão que, quando desperta, leva o filme às alturas. É onde o cara trabalha as transformações temporais de um cosmo em constante desarmonia, alterando o foco expressivo e pincelando as dualidades que acompanham a recepção do tempo no homem de maneira muito mais eficaz do que nesse O Curioso Caso de Benjamim Button. Que não chega a ser de todo ruim, mas é passivo de um modo que Zodíaco não era e acaba soando plástico e fugaz por conta disso. Antes, Fincher foi preciso: extraiu do roteiro qualquer gordura que prejudicasse a atmosfera áspera e concisa imposta à narrativa (imagine o trabalho braçal de montagem desse filme), concebendo sequências onde a beleza estava no disfarce de uma estética de alta complexidade em nome do discurso direto e da imagem sintética. Em se tratando de toda essa audácia, os excessos de Benjamin Button soam como um passo em falso de um cineasta que ainda não encontrou um caminho definido, optando por trilhar rumos inusitados a fim de descobrir os percalços localizados entre o início e o fim de cada história. Não faz mal. Para os dias de fúria, sempre teremos Zodíaco.




 


é isso aí, bicho

 

23.1.09


[12:31 AM]

Angelina Jolie tem tantos filhos que pode facilmente montar dois times de futebol de salão sem deixar ninguém esquentando banco. No entanto, em A Troca, implora desesperadamente para reaver um deles, desaparecido e supostamente trocado por outro garoto pelo departamento de polícia de Los Angeles. Admito que entrei um pouco receoso no cinema, infelizmente envenenado por algumas críticas incisivas ao filme do Clint, algumas das quais até o reduziram ao chavão abominável de “filme menor”. E já na primeira cena tomei um susto, temendo pelo que viria a seguir, quando a câmera simplesmente filma o toque de um despertador enquanto Jolie, mãe alerta que é, o desliga, levanta da cama, acorda o filho e prepara o café, tudo isso em apenas 2 segundos. Pode não parecer plausível, mas a primeira sequência sintetiza com clareza o problema central do filme: por mais que Clint Eastwood tenha em mente um projeto de filme delineado, de modo a contar com os mínimos recursos possíveis para transmitir seu olhar sobre a história, a interpretação de Jolie joga a espontaneidade do filme em outra via e acaba desencandeando um embate cruel entre o natural e o mecânico, num plano onde a coexistência entre ambos sequer pode ser cogitada e a existência de um anula as possibilidades do outro. Sua interpretação é programada para emocionar tal qual Charles Bronson o é para matar. O problema é que Bronson matava, já Angelina debilita as potencialidades da narrativa ao expor com transparência as fraquezas do roteiro, impedindo o filme de avançar e de se impor de maneira positiva em grande parte de seu tempo de cena.

Tanto é que a história cresce exponencialmente quando prioriza o foco em outras estruturas que não a da mãe desconsolada: é quando vemos a mão segura de Eastwood aparecendo, seca e confiante de si, nos momentos em que o filme se desdobra para o thriller e volta a aliar um senso dramático que pende para o suspense, numa tensão que é explorada com grande notabilidade pela montagem. Se o resultado não é de todo satisfatório (principalmente se valermos a comparação com a torrente de filmaços que o Clint vêm cometendo nesta década), A Troca toma rumos violentamente mais densos quando se afasta da interpretação maquinal de Angelina Jolie - seja em qualquer das sequências passadas no rancho ou durante o enforcamento do assassino -, o que me sugere que a opção por tomar para si o papel principal em Gran Torino é só uma das provas de que Clint Eastwood ainda pensa em seu cinema com uma lucidez que não cansa de impressionar. E que Machado de Assis
estava certo: o negócio é não transmitir a criatura nenhuma o imenso legado da nossa miséria. Em nome do bom cinema.



 


é isso aí, bicho

 

19.1.09


[9:03 PM]


Sutil e ameaçador, John Carpenter traz o mal para a luz do dia e desenha movimentos de retração na cena mais foda de Halloween: Jamie Lee Curtis caminha pela calçada com a amiga na tarde do último dia de outubro e percebe que está sendo observada de frente pelo psicótico mascarado do filme. Sem impulsos, cortes abruptos ou sustos fáceis, o medo vai às ruas sob o Sol vespertino e, como um vírus que se alastra pelas veias do corpo, percorre as ruas da cidade infectando todo um ambiente planificado para mostrar a imperatividade do mal, que não precisa de motivos, explicações ou qualquer tipo de justificativa para existir. Não há como lutar contra a natureza humana, e Carpenter cospe Hitchcock para inverter uma estrutura já trabalhada por ele em Assalto à 13ª DP e acaba assim reverberando mais longe, em Hawks e Romero, para desaguar num cinema vigoroso que atravessa o plano da reconfiguração de idéias. Criar um gênero implodindo diversos outros não é nada fácil, sobreviver ao tempo conservando a energia inebriante da referência aliada ao instinto de rebeldia é mais difícil ainda, mas o cara conseguiu. Subversão e genialidade é isso aí, por $10 nas Lojas Americanas mais perto de você.



 


é isso aí, bicho

 

13.1.09


[12:51 AM]

LIVING JUST ENOUGH




 


é isso aí, bicho

 

12.1.09


[2:52 AM]

Fui para o ponto de ônibus com o Crônicas, do Dylan, o último exemplar que constava no estoque da livraria, depois de muito tempo flertando à distância com o livro. Já era depois da meia-noite e os ônibus demoram a passar, o que me pareceu um convite a espiar alguns trechos da coisa (até me surpreendi com um capítulo inteiro – pequeno, mas inteiro – dedicado ao New Morning, disco bucólico que eu adoro e que possui grandes canções ofuscadas por outras ainda maiores, de tempos anteriores). Um casal conversava, um menino com balões amarelos me pediu um real, e nada do ônibus passar. Calor. Dentre vários outros problemas, a maior das mazelas que o Rio de Janeiro apresenta não se relaciona com a intensidade da violência urbana, com o caos no trânsito, a desordem habitacional ou com a sujeira pútrida que invade as ruas, nada disso. Aqui, o perigo toma forma, se personifica e está concentrado em pequenas criaturas com o poder alquímico e instantâneo de desestabilizar estruturas e colocar abaixo um complexo castelo de cartas sem medir esforços: são as mulheres. Essas linhas são para a menina de vestido vermelho e cabelos curtos e amarrados que chegou ao ponto de braços cruzados, cantando uma música que eu não conheço, para me perguntar se o ônibus já havia passado. Era Woody Guthrie, mas depois era ela, e não era mais nada: nem avenida, nem sorvete, calor ou calça comprida.

Como é que você se chama, quando é que você me ama, onde é que vamos morar?

Acabamos dividindo um táxi, porque ela só tinha quatro reais e eu $3,25, e ela estuda artes cênicas em uma universidade do Estado e eu larguei o curso de letras, e eu sou de Minas e a família dela é de lá, uma cidade qualquer, e os dentes brancos e alinhados em escalas proporcionalmente geométricas contrastavam com um leve e quase imperceptível desvio de olhar que eu acabei conhecendo como sendo de Clarice. Que mistério tem Clarice, pra guardar-se assim tão firme no coração? Me mudo de casa no fim de semana e, como no fim mais trágico de algo que sequer chegou a acontecer, a mão sempre suada, provavelmente não a verei mais. Ou pode ser que sim, em algum teatro, ou pela janela do ônibus, ou então no próximo domingo, no mesmo ponto, no mesmo horário. Por enquanto, ela dorme a três ruas da minha, com o vestido vermelho pendurado na cadeira ao lado da cama e a memória esquecida num lance de dados que retalhou um mundo inteiro. Não pedi o telefone e não perguntei o número da casa, mas essas linhas são para você, Clarice, o maior dos problemas do Rio de Janeiro e a causa inesperada dessa insônia desgraçada.



 


é isso aí, bicho

 

11.1.09


[3:24 PM]

Bowie, Mick Ronson e banda



Clássicos de Hunky Dory, Ziggy Stardust, Low, Diamond Dogs, Aladdin Sane, Station to Station e Reality (mais Miracle Goodnight) ao vivo, no porão da minha casa. O livro da Bondinho já anunciava que 1972 foi um bom ano.



 


é isso aí, bicho

 

6.1.09


[11:10 PM]


Joel e Ethan Coen continuam sem entender o que aconteceu com a América, mas não deixam de apostar em diversos fatores que se confundem entre si e acabam por apontar uma ferida que está longe de cicatrizar. A cultura da violência, reforçada ao longo dos anos como uma das marcas mais fortes e dolorosas da sociedade americana (seja através da repressão bélica ou simplesmente hierárquica); a imposição de um modus vivendi centrado no individualismo, onde o coletivo funciona à base do nivelamento político-ideológico consciente; grandes corporações e seus olhos abertos, interferindo, abusando, controlando; a ambição humana potencializada pela insatisfação - com a estabilidade, com o cônjugue ou com o corpo; e o dinheiro, sempre ele, eixo central que move uma engrenagem em forma de continente que acaba por mover o mundo. Queime Depois de Ler possui o mesmo tom trágico e cruel de Onde os Fracos Não Têm Vez, e as poucas risadas que surgem são pontuadas por um desconforto que mostra o quão sombria é a visão que os irmãos possuem sobre os jogos de poder - por menores e menos significantes que sejam as estruturas a partilharem desse bolo, como uma simples academia de ginástica – que acabam por infectar um mundo já há muito corrompido. O termo comédia precisa ser repensado de acordo com suas exigências de gênero caso pretenda servir de referencial para este filme. E, se mesmo assim estivermos diante de uma, Queime Depois de Ler cresce na memória à medida que se afasta progressivamente dos risos.



 


é isso aí, bicho

 

 


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