qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

12.4.07


[11:10 AM]

ABRIL: 10,5 filmes (quase um Fellini!)
O Enigma de Kaspar Hauser (Werner Herzog /1974)
A premissa é interessantíssima: em 1828, um homem é encontrado na praça de uma cidade sem saber andar ou falar, após passar toda vida trancado num porão abandonado. Prato cheio para psicólogos e simpatizantes da antropologia, o filme de Herzog toca em um ponto crucial no debate a respeito da sociedade enquanto instituição cristalizadora do homem: quais os meios corretos, se é que eles existem, para se chegar a uma possível civilização do ser? É inviável estabelecer idéias que não beirem o incômodo quando se trata de um tema intricado como tal, até porque para nós, hoje, após tantos debates e descobertas, pensar num ser absolutamente marginalizado, despojado de valores, quase animalesco, é tarefa das mais complexas. O cineasta alemão se dispôs a discutir a situação baseando-se em registros históricos, e o resultado atinge a plenitude em várias passagens, além de contar com uma atuação magistral de Bruno S. interpretando o misterioso Kaspar Hauser.

Bem-Vindos (Lukas Moodysson /1998)
Provavelmente muitas vivências da infância do diretor - que ocorreu durante os anos setenta - estão implícitas nas ocasiões narradas em seu segundo filme, o retrato de uma comunidade hippie em 1975, na Suécia. O enredo põe em choque o comportamento anárquico dos socialistas com o dos neo-burgueses que se mudam para a casa e passam por uma reavaliação de seus costumes e valores, por meio de situações intensas e que servem de mote para as discussões acarretadas pela fita. Ligeiramente maniqueísta, mostra a partir de dentro os conflitos internos que os ideais dominantes durante a Guerra Fria acarretaram, e aborda com leveza o espírito de busca pela liberdade que marcou a época.

Veludo Azul (David Lynch /1986)
Em 1986, este que vos escreve era apenas um espermatozóide latino-americano sem parentes importantes e vindo do interior enquanto David Lynch pirava o cabeçote dos que saíam do cinema após a sessão de Veludo Azul, uma história desenvolvida a partir de uma orelha encontrada num terreno baldio. Sempre intrigante e com situações no mínimo bizarras, o destaque fica por conta da primeira hora (com ênfase nos minutos iniciais, onde Lynch sintetiza visualmente todo o enredo que virá a se desenrolar com pequenas metáforas), onde nos é apresentada toda a atmosfera peculiar e fascinante que seus filmes apresentam. Certamente deve ser o filme que traz as piores lembranças para aquele irmão do Zezé di Camargo que não é o Luciano e que tem um pôster do Van Gogh atrás da porta.

As Damas do Bois de Boulogne
(Robert Bresson /1945)
Baseado num capítulo de um romance de Diderot, o apenas segundo filme de Bresson mostra que o cineasta, desde o início da carreira, gozava de uma convicção própria que é traduzida na tela em cada fotograma: As Damas é daqueles filmes que mostram toda a força de um diretor nas construções técnicas que completam a história. Os planos são bem filmados, a direção de atores é estupenda (o trio principal está magistral) e os diálogos de Jean Cocteau mostram o talento do artista para adaptação de falas. Merece ser descoberto, mesmo sendo uma obra menor.

Last Days
(Gus Van Sant /2004)
Sabe aquele jogador do seu time que dribla, dá chapéu, caneta, faz firula, pedala, mas na hora de chutar pro gol nunca acerta? E aquele amigo metido à besta que conversa num idioma que nem parece o seu para parecer inteligente, mas na verdade nem sabe o que está falando? A impressão que fica de Last Days é essa. Gus Van Sant, celebrado após receber a Palma de Ouro em Cannes por Elefante (seu novo filme, Paranoid Park, também está selecionado para concorrer na próxima edição do festival) quis retratar no cinema os hipotéticos últimos dias de Kurt Cobain antes do suicídio, em 1994, porém o resultado fica muito aquém do esperado. Todos os enquadramentos do filme são minuciosamente estudados para adquirirem ares pictóricos, e não que isso seja o principal problema, já que Elefante possui a mesma preocupação estética, mesmo sendo um filme muitíssimo bem construído. Last Days não é bom devido ao mau tratamento do diretor com o roteiro, que aparece vazio, esburacado, priorizando durante seus arrastados 97 minutos o desfile ébrio de Michael Pitt em uma mansão abandonada enquanto seus amigos dormem, se divertem e brincam com missionários cristãos. Kurt certamente estaria cagando e andando pro que fizeram com sua imagem, mas que o cara merecia mais, por tudo o que fez, é inegável.

Scoop
(Woody Allen /2006)
É, na mais prosaica das definições, um filme que segue a linha desenvolvida por Allen até o grande desvio chamado Match Point. A impressão que fica, após um grandioso trabalho inspirado em suas próprias raízes, é que o cansaço abateu a veia cômica que sempre foi o diferencial em seus filmes. A originalidade paranóica dá lugar a diálogos pobres, onde as piadas não passam de meros coadjuvantes apagados e sem brilho, e, a partir da metade, a história vai se tornando previsível a ponto de causar incômodo. Não que Melinda e Melinda e Igual a Tudo na Vida sejam filmes marcantes na carreira de Allen (mesmo sendo bastante agradáveis e interessantes), mas nesse caso o retrocesso prova que nem sempre um déja vù vale a pena

Os Infiltrados (Martin Scorsese /2006)
A montagem é impressionante. Além de ser, agora comprovadamente, um grande filme.

O Discreto Charme da Burguesia
(Luis Buñuel /1972)
Não sei vocês, mas sou fascinado pela dialética. Durante os anos que antecederam a entrada na universidade, um dos principais fatores que me motivavam a entrar numa sala de aula com o intuito de rever a planária e o funcionamento de seu organismo era o entusiasmo do professor enquanto conhecedor e transmissor de conhecimento. Por maior que seja minha indiferença pelo corpo humano, pelos animais, pelos fenômenos físicos, químicos e numéricos das ciências exatas e biológicas, quando o cara sabia do assunto minha presença na sala era certeira, não tinha erro. E quando terminei de assistir ao Buñuel em questão, a sensação de excitação igualava-se a uma aula sobre sociologia onde o professor era o espanhol, e dispostos em carteiras ao meu lado encontravam-se Marx, Jung, Dalí, Freud e o calado Adam Smith. As pautas são tão contundentes que a exigência de uma condução firme se mostra ideal para não coibir o propósito inicial de tratar dos assuntos com um senso de humor cínico, incrustado do desprezo abissal que se encontra sob as divergências entre as classes sociais. É, no mínimo, indispensável.

***
_Mostra Andrei Tarkovski

O Espelho (Andrei Tarkovski /1974)
O abstracionismo do diretor, carregado de imagens fortes e poéticas, projeta um argumento por demais cerebral e confuso que talvez tenha sido o principal motivo de tantas fugas ao longo da sessão: ao final restavam apenas eu e mais quatro pessoas na sala. Certas passagens são de uma beleza estética singular, carregadas de simbolismos que intercalam fases diferentes da vida da personagem principal e sua mãe, uma referência autobiográfica de Tarkovski durante o período que antecedeu a guerra na qual a Rússia esteve envolvida.

A Infância de Ivan (Andrei Tarkovski /1962)
E dois anos após o debute atrás das câmeras, Tarkovski realiza seu primeiro longa-metragem, um documento sobre as feridas ainda em aberto resultadas da participação de seu país na guerra. Modesto, com momentos de rara beleza estética e bem fotografado, prenuncia um universo hermético e autoral que veio se firmar nas décadas seguintes como produto de um intelecto indagador, fora do senso comum e com questões pertinentes de contribuição direta para o cinema e para o pensamento do homem moderno.

O Rolo Compressor e o Violinista (Andrei Tarkovski /1960)
Enquanto a União Soviética ainda se convalescia dos impactos causados pela II Guerra, Tarkovski concluía seu curso de cinema com um média metragem que narra a amizade de um menino violinista e um motorista de rolo compressor. Bastante intimista e já denotando as peculiaridades que mais tarde marcariam sua obra, como os simbolismos e a atmosfera fria e desbotada, o filme fica muito acima da média em se tratando de uma estréia, vide a sobrevivência como objeto de discussão quase meio século após sua realização. A cumplicidade entre adulto e criança, dois pólos opostos de noções e ideais distintos, é estabelecida a partir do momento em que ambos procuram e encontram um no outro o conforto que lhes falta na condição de homem. Simples, curto e bonito.



 


é isso aí, bicho

 

4.4.07


[11:00 AM]

"Neste momento estou desenvolvendo o começo da história que iniciei com o título que lhe deu o sopro inicial de vida. No quiosque de livros da praça li um poema no qual o autor (roubei dele o título da minha história) diz que o mundo é doloroso, os seres humanos não merecem existir e ele, poeta, suspeita que a crueldade da sua imaginação está de certa forma conectada com seus impulsos criativos. Matar a velha, não a crueldade, como disse o poeta, mas a força do meu ato e não apenas da minha imaginação foi a impulsão que fará de mim um verdadeiro escritor. Tenho, agora, o começo, tenho o meio e o fim."



 


é isso aí, bicho

 

 


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