qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

6.6.07


[6:16 PM]

JUNHO: 11 filmes e 1 curta

Macunaíma
(Joaquim Pedro de Andrade /1969)
O livro de Mário de Andrade é maravilhoso. Em poucos dias desenvolvi meus instintos antropofágicos devorando as páginas que contam a história do herói brasileiro sem caráter, uma tentativa de refogar o místico nacional sob a ótica modernista. Fiquei curioso para ver o que Joaquim Pedro de Andrade fez para transpor o intricado jogo de palavras de Mário para a telona em 69, e contrariando minhas próprias expectativas, ler o livro apenas enriqueceu a degustação do filme, um caso raro de somatório bem sucedido. A maior surpresa, porém, veio quando ficou explícita a intenção do cineasta de romper a barreira entre popular e culto, uma estratégia que não só alçou seu filme a outros patamares, como também moldou as características necessárias para se fazer cinema no Brasil futuramente. Mesmo quando Joaquim desconversa e diz que não acredita no Tropicalismo enquanto movimento, não há como negá-lo quando se monta situações grosseiras ao som de Strauss e Villa-Lobos, ou quando se faz do nu a contraposição ao jogo de cores berrantes que parecem gritar a todo instante, quando se mistura tipos, classes, tons e texturas com o intuito de, a partir de um híbrido heterogêneo, construir a figura do real cidadão brasileiro. Macunaíma leva para o cinema toda a estética tropicalista e dela não se distancia em momento algum. É, também, um filme assumidamente pop, que joga o renascimento cultural brasileiro de 22 na panela, e a ele soma a estética multicor de Pierrot le Fou, a música de Jorge Ben, as extravagâncias de Paulo José e Grande Otelo, uma fina camada de auto-ironia, o regime militar e suas guerrilhas urbanas, sempre mantendo o folclore e a cultura brasileira em choque a todo o momento com as fronteiras para além do Atlântico. É um filme necessário para o entendimento dos rumos da arte no Brasil ao final dos anos 60, e mais importante ainda, um exemplo de como se fazer um cinema atrelado aos conceitos universais sem jamais perder as raízes.

Brasília, Contradições de Uma Cidade Nova
(Joaquim Pedro de Andrade /1967)
Narrado pelo poeta Ferreira Gullar, o curta-metragem mostra o viés político por detrás da simbólica construção da cidade escolhida para ser a nova capital do país. São apresentados também os paradoxos existentes entre as propostas de inclusão social dos arquitetos idealizadores do projeto e suas malsucedidas conseqüências ao longo da história. Fica claro que foi um erro pensar em Brasília como uma cidade isolada, primeiro devido ao seu caráter geográfico, de localização bem no centro do país, e segundo pela atração centrípeta que suas promessas trariam, com recordes de migração em busca de dinheiro registrados à época. Passou a ser apenas uma questão de tempo até as reais circunstâncias de desigualdade virem à tona, e hoje, quarenta anos após a realização do curta, o único resquício do sonho chamado Brasília corresponde à beleza de seus monumentos e espaços.

Os 12 Trabalhos (Ricardo Elias /2007)
Eis um filme brasileiro pequeno e simpático, que faz bom uso da intertextualidade com a história do guerreiro Hércules e é ambientado na caótica cidade de São Paulo. Como nunca considerei a pretensão um defeito, a grande debilidade do filme se dá justamente pela carência de ousadia na elaboração das ações desenvolvidas pela personagem principal. Talvez se pretendesse ir além, quem sabe o resultado não seria outro. O destaque fica por conta do elenco, bastante afinado e em grande sintonia.

Jules e Jim
(Jules et Jim, François Truffaut /1962)
Domingo foi um dia tão cinza que só o bigodinho de Jeanne Moreau seria capaz de me agradar de fato. Dito isso, trouxe pela terceira vez para casa suas roupas largadas, a boina xadrez, o cigarrinho e o buço fino em contraste com a abundância de seus lábios. Milhões de palavras já foram gastas para descrever as sensações que o “turbilhão da vida” causam, me contento então em apenas citar a belíssima seqüência em que Jules e Jim jogam dominó enquanto Jeanne ensaia variações faciais, indo do amargo ao mais doce em poucos segundos. De beleza ainda mais expressiva é o tratamento que a câmera de Truffaut dá à mulher, congelando sua imagem por poucos e quase imperceptíveis segundos. Uma maravilha.

Trainspotting (idem, Danny Boyle /1994)
Certa vez perguntaram ao Hermeto Pascoal como ele distingue a música boa da música ruim, e o albino respondeu de pronto: “Em primeiro lugar, é preciso que eu goste. Se eu gostar, é boa”. Adaptando para o cinema a máxima do músico, também tenho grande consideração pelo filme de Danny Boyle simplesmente porque me divirto bastante sempre que o assisto. A revisão dessa vez foi por acaso, e talvez por ter lido dias antes um livro sobre morfina de William Burroughs, senti uma estranha familiaridade com o assunto, mesmo sem ainda ter chegado às vias de fato. E outra, não há como descartar as milhões de deliciosas referências aos filmes de James Bond, “Ziggy” Pop (um misto de Ziggy Stardust com Iggy Pop?), Lou Reed e a cultura pop em geral. Mesmo com todos os reveses, ainda ocupa lugar de destaque na minha lista de melhores dos anos 90.

Harry Potter e o Cálice de Fogo
(Harry Potter and the Goblet of Fire, Mike Newell /2005)
Assistir aos jogos brasileiros nas quartas à noite tem se mostrado uma atividade tão agradável que, durante a final da Taça Libertadores, preferi voltar aos 15 anos e assistir a adaptação do quinto livro do bruxo inglês na HBO. E corroboro aqui minha opinião de que prefiro as aventuras fantásticas (e infantis, mas desde quando isso passou a ser problema?) sob a batuta das varinhas mágicas do que as Nárnias, Expressos Polares e 37 homens e seus inúmeros segredos. Mike Newell fez um filme bem-feito, usou efeitos especiais de última geração a favor da história e ainda soube cavar o desenvolvimento psicológicos de suas personagens. Tá de bom tamanho pra um simples filme juvenil.

Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Sex Comedy, Woody Allen /1982)
Primeiro trabalho de Allen com sua então esposa Mia Farrow, este é um filme leve, divertido e carregado de um certo ar poético, como se filmado durante as férias de verão do cineasta e sua turma. Apresenta momentos bem engraçados (as cenas em que Allen aparece voando num triciclo são impagáveis) e possui um pé no misticismo, que viria a ser explorado a fundo anos depois pela dupla, no igualmente simpático Simplesmente Alice.

Broadway Danny Rose (idem, Woody Allen /1984)
Um exercício ágil e movimentado de cinema, onde grande parte da trama narra em flashback um dia aventurado de Allen e Farrow (em sua mais significativa atuação enquanto esposa do homem) que deixaria qualquer Jack Bauer da vida com inveja. O preto-e-branco adotado permite bons contrastes de luz, e só favorece o final, que possui atributos levemente melancólicos, deixando no ar aquele aroma felliniano que eu adoro e que por si só justifica os 80 minutos de filme. Esse é pra assistir antes de dormir.

O Hospedeiro (The Host, Joon-ho Bong /2006)
Está sendo apontado por muitos entendedores de cinema como o mais expressivo filme do ano, e em grande parte por conter, numa dosagem exata, elementos políticos, dramáticos, cômicos e fantasiosos. Nesse aspecto não dá pra discordar: a fita é mesmo um tecido muitíssimo bem costurado, capaz de pregar bons sustos, desenvolver cenas bem trabalhadas de suspense e fundir o drama e a comédia numa só unidade. A seqüência onde o monstro aparece pela primeira vez, à beira do lago, deve ter dado nos nervos dos dirigentes cinematográficos americanos, incapazes de, com oceanos de dinheiro a disposição, produzir um filme tão bom quanto os coreanos o fizeram. Por isso não é de se espantar que tenha vendido 13 milhões de ingressos na Coréia do Sul (o equivalente a 20% da população do país – como se um filme levasse 36 milhões de brasileiros aos cinemas por aqui) e esteja consolidando, a cada espectador, a justa fama que merece. Não está no topo, mas da lista dos melhores do ano não escapa.

Edifício Master (Eduardo Coutinho /2002)
Assistir ao documentário de Eduardo Coutinho é uma experiência e tanto. Com tantos mecanismos aos quais recorrer para traçar um painel da confusa realidade brasileira, o cineasta percebeu que ninguém é perito suficiente para tratar do assunto como eu ou você. Por isso, decidiu realizar um projeto entrevistando pessoas normais, daquelas que passam por nós todos os dias na calçada, que nos atendem em seus balcões, que cuidam da nossa segurança e que somam estatísticas aos diagnósticos públicos. Seu filme, um retrato amargo e não menos brilhante do estado das relações sociais na atualidade, foi buscar num prédio em Copacabana a visão de um Brasil que vai além da brutalidade das favelas, do carnaval e da violência. O material bruto filmado por Coutinho renderia, por si só, um ótimo filme, mas a seleção de depoimentos, o cuidado com as perguntas, a sensibilidade das respostas e a intimidade que une todos esses predicados é que torna seu documentário uma das experiências mais significativas do cinema contemporâneo nacional. Há momentos grandiosos, como o do major americano que conheceu e cantou com Frank Sinatra, ou o relato da senhora assaltada dentro do próprio apartamento e até o do casal que se conheceu através de um anúncio de jornal. Mas nenhum depoimento choca tanto quanto o da menina que sofre de paranóia e que tem dificuldade de encarar as pessoas nos olhos. Suas palavras estão ecoando até hoje na minha cabeça. E o diálogo de Coutinho vai além, conquista pelo não-dito, lança luz sobre uma sociedade que assiste, impotente, ao esgotamento das relações pessoais, ao fechamento dos indivíduos em seus próprios redutos, com suas emoções e infinitas tristezas, mostrando que as pessoas - assim como as coisas - também estão fora da ordem.

Zodíaco (Zodiac, David Fincher /2007)
Há um seriíssimo problema de dinâmica na narrativa que prejudica muito Zodíaco. O ritmo da trama é quebrado com freqüência: começa com uma boa seqüência, onde há um suspense latente e iminente, e a partir daí limita-o a certas cenas alternadas com uma história que nunca decide para onde ir. Na sala de projeção, pouco depois da metade do filme, duas das seis pessoas que ocupavam as cadeiras penduraram as chuteiras e foram ver Casseta e Planeta, e agora você pode se perguntar o porquê de, logo um filme do Fincher (que é bem chegado ao cinema popular) ter míseros espectadores e ainda assim desistências ao longo da fita. A história – um serial killer enigmático que assustou a Califórnia na era pós-Charles Manson – possui elementos para uma trama densa, que aproveite a neurose das pessoas, a ingenuidade das vítimas, o desgaste dos policiais, a astúcia do assassino, enfim, o tecido híbrido que costura os mistérios de um bom filme policial. Mas em Zodíaco não há objetivo conciso, nem centrado: nunca se sabe onde o diretor quer chegar, qual seu ponto visado (o criminoso, as vítimas, as corporações), e isso dá margem para um texto prolixo, que atira para todos os lados e não acerta alvo nenhum. O cinema de Fincher amadureceu, mas isso não pode ser julgado como um avanço, já que seu filme se perde até em sua proposta de soar como um anti-thriller. As atuações do elenco salvam, e Robert Downey Jr, que já entregou este ano uma interpretação acima da média em O Homem Duplo, está muito bem em cena, assim como os outros personagens principais. Uma bela decepção para um filme que prometia tanto.

O Pagamento Final (Carlito's Way, Brian De Palma /1993)
De Palma filmando o universo gângster é como uma injeção de testosterona na veia, daquela que pletora o corpo de êxtase e é sempre revigorante no final das contas (injeção n. 2: dirigir sozinho pelo deserto, à noite, ouvindo o Funhouse, e tomando Caracu). Com Al Pacino, dez anos antes, o diretor havia feito o violento Scarface, e a parceria é retomada com a garantia da qualidade sanguinária que os uniu anteriormente. Há todo um aprimoramento técnico, traduzido pelas fortes imagens e pelos ângulos explorados magistralmente (a seqüência na estação ferroviária é um primor cinematográfico, talvez o maior momento do filme), e demonstrando domínio pleno na construção da narrativa. De Palma reduz a marcha e desenvolve sua personagem principal com uma personalidade moderada - tipo um Tony Montana após a prisão -, alternando momentos de sobriedade e fúria, sensibilidade e violência. A trupe viril é encabeçada por Pacino em outra grande atuação, e Sean Penn, esquisitão, cabeludo e chegado numa branquela.

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