qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

24.7.08


[3:04 PM]



Os dez melhores filmes lançados no primeiro semestre do ano, para a votação da Liga dos Blogues. A posição de cada um nessa lista pode variar no fim do ano (o filme do Lumet, por exemplo, ocupa a primeira posição por ter sido revisto três vezes nos últimos dias, em decorrência do meu vacilo de ter deixado o DVD com os filmes do Mojica e outros lançamentos em casa e ter trazido só um, com a saga da família de Albert Finney rumo ao inferno – conhaque demais na véspera da viagem dá nisso), e como pretendo voltar a alguns filmes dessa lista nos próximos meses, certamente as coisas vão mudar. O que não é nada de novo, levando em conta as inconstâncias que marcam meus dias e que podem render até uma puxada de tapete violenta no meu futuro, dependendo do movimento dos barcos e da minha disposição em aturar a faculdade. Ok, sob o olhar do homem, que inclusive protagoniza um dos mais bonitos filmes da lista, ei-la:


1. Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto (Sidney Lumet)

2. Onde os Fracos Não Têm Vez (Joel e Ethan Coen)

3. Paranoid Park (Gus Van Sant)

4. Não Estou Lá (Todd Haynes)

5. A Espiã (Paul Verhoeven)

6. Shine a Light (Martin Scorsese)

7. Wall-E (Andrew Stanton)

8. Fim dos Tempos (M. Night Shyamalan)

9. Sangue Negro (Paul Thomas Anderson)

10. Sweeney Todd (Tim Burton)



 


é isso aí, bicho

 

16.7.08


[5:16 PM]

L.H.O.O.Q. ou “ela tem fogo no rabo”


Apresentei aquele que pode ser considerado como o meu primeiro contato direto com o experimento cinematográfico semana passada, durante a última aula do semestre, para uma sala de mais ou menos 15 pessoas. A reação não podia ter sido diferente (e tão menos honrada ou esperada do que qualquer outra): passaram pelo urinol sem sentir seu cheiro ou sequer observá-lo por inteiro, com olhos e poros abertos, atentos. Por mais que o período de “filmagem” possa ser resumido em um mísero dia, sem inspirações parnasianas ou encaçapadas certeiras durante a coleta de depoimentos, mais do que nunca me parece que o litro de angústia fica mesmo é na mesa de montagem - a bula ignora a dosagem - e o esvaziamento ocorre em doses pequenas, dois dedos, como um veneno crônico que nos distancia do sono. Tá certo que eu nunca quis ser a Françoise Collin para brincar de estudante durante o maio francês ou selar o beijo do pierrot na roda, mas o contato direto com a indiferença pressupõe que a) estamos e pode levar em conta apenas o singular diante de um bolo de pretensão cuspido e escarrado, esvaziado de conceito e assumidamente pobre em sua caracterização temática, b) as pessoas da sala de jantar não aprenderam até hoje que o negócio é derrubar as estantes e virar os livros do avesso, enredo e verso, e, portanto, são esvaziadas com alto risco de transmissão ou c) já que tudo se resume ao sexo, Mr. Sganzerla, tire-nos daqui com toda sua veste e deixe que o sheik se mate.

Três dias enfurnado na ilha de edição para quinze minutos retalhados e de inquietude, sonoros, como o depoimento pelas ruas de São Paulo que ecoa até hoje nos pisos de azulejo hidráulico da parede. É também o que o americano chamaria mais tarde de verdades e mentiras, sobre a mágica, a montagem e a ilusão do espectador. Mas a verdade é que fiquei pobre depois que o Tonacci desenhou novos rumos para o cinema, e não seria errado supor que toda essa lira não passou de um noturno delírio de vaidade, imaginada só para ver as meninas duas lindas seqüências de Bang Bang projetadas na sala de aula sob o prisma tropicalista de Lost in the Paradise e sempre De Cara. Não tínhamos proposta, nunca tivemos outro pensamento senão o de fazer transbordar o conteúdo do urinol, de impedir a auto-afirmação, porque eu sempre soube que o essencial era fazer com que as idéias tomassem conta queimando gente nas praças públicas. Mas, se tudo se resumir apenas a uma questão de sexo, não nos resta dúvidas: ela tem mesmo fogo no rabo.

P.S.: Gil, pode vir que hoje tem canjica na varanda da Maria.




 


é isso aí, bicho

 

9.7.08


[2:02 PM]

"Eu sempre estive nu. Na Academia de Acordeão Regina tocando La Cumparsita, eu estava nu. Eu só sabia que estava nu, e ao lado ficava o camarim cheio de roupas coloridas, roupas de astronauta, pirata, guerrilheiro. E eu, do mais pobre da minha nudez, queria vestir todas. Todas, para não trair minha nudez. Mas eles gostam de uniformes, admitiriam até a minha nudez, contanto que depois pudessem me esfolar e estender a minha pele no meio da praça como se fosse uma bandeira, um guarda-chuva contra o amor, contra os Beatles, contra os Mutantes. Não há guarda-chuva contra Caetano Veloso, Guilherme Araújo, Rogério Duarte, Rogério Duprat, Dirceu, Torquato Neto, Gilberto Gil, contra o câncer, contra a nudez. Eu sempre estive nu. Minha nudez Raios X varava os zuartes, as camisas listradas. E esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa eu vou pro samba que você me convidou? Qual a fantasia que eles vão me pedir que eu vista para tolerar meu corpo nu? Vou andar até explodir colorido. O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as roupas."



 


é isso aí, bicho

 

4.7.08


[8:27 PM]

Mesmo sendo cada vez mais difícil, continuo fazendo as honras de advogado de defesa da obra do Woody Allen quando, volta e meia, a discussão em torno de seu nome ressurge por aí. Seu último filme, por exemplo, vai de encontro às obras que o consagraram e é outro tijolo que ajuda a solidificar a construção dessa nova morada que ele parece estar erguendo desde o começo da década, calcada em uma sobriedade cinza que vez ou outra mostra a verve séria do cineasta. O problema é quando nos deparamos com um filme cuja essência condiz com a grandeza de seu título, como é o caso de Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto, de Sidney Lumet, que põe abaixo todo o esforço de Allen e se individualiza através de uma elaborada armação de um texto fragmentado e de uma alta sofisticação no conceito visual. Insuportavelmente tenso, bastam os 10 minutos iniciais para despertar a pobre Cassandra e lançar à moça o aviso de que, perto da representação do inferno encenada através das lentes de Lumet, seu sonho não passou de uma singela contagem de carneirinhos.

Difícil acreditar que os 84 anos vividos reverteram as expectativas e abriram um abismo imenso entre o veterano cineasta e a senilidade que acomete pessoas de sua idade, quiçá até mais novas. A rigidez dos enquadramentos dá espaço para a interação entre personagem-espaço de forma geométrica, sendo esta simbiose elemento vital para a construção e o polimento das personagens que se chocam ao longo da narrativa (opção que se justifica na seqüência em que Phillip Seymour Hoffman bagunça sua casa após ser deixado pela mulher). Equilibrado de uma forma que conjuga tensão e densidade, sem em momento algum abrir mão da elegância, o ritmo do filme mostra o domínio e a excelência de Lumet por trás das câmeras e colocam este filme ao lado de suas maiores e mais significantes contribuições ao cinema. Mal aê, Woody, eu bem que tentei.

P.S.: Wes Anderson, pintor frustrado, brinca de playmobil com figuras humanas em vagões perdidos pela Índia enquanto escuta o melhor disco do Kinks e olha fixamente para o próprio umbigo. Aos 47 anos, cansado de falhar em discussões públicas com o amigo brasileiro Jorge Gauguin (a mais célebre delas sobre a vida e a obra de David Bowie), embarca em um retiro espiritual para as Filipinas onde acaba cortando e depois comendo um pedaço da própria orelha. “A antropofagia gratuita pouco me interessa, não dou minha arte aos tempos”, disse ele, em entrevista coletiva concedida diretamente do saguão de entrada do Hotel Chevalier, em Paris, maio de 2007.

Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto (Before the Devil Knows You’re Dead, Sidney Lumet/ 2007)




 


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