qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

31.12.08


[12:20 AM]

Preguiça. Pura e simplesmente. Tá explicado? Para o bom leitor, uma palavra basta.

Dois mil e nove se aproxima e eu sequer comecei a pensar nas famigeradas listas de melhores do ano. Quer dizer, nas melhores vírgula, porque faz tempo que eu parei de acompanhar a leva de “melhor banda de todos os tempos” que a NME anuncia mensalmente e, com isso, praticamente extingüi (hoje é o último dia para se usar o trema obrigatoriamente, me deixem aproveitar) do blog e da minha vida a listagem que envolve a música: melhores discos, shows, covers, lançamentos e descobertas estão fora de cogitação por aqui. Sobram os filmes. Mas eu vou empurrar o quanto puder essa listinha para o começo de janeiro a fim de preencher algumas lacunas, mesmo lamentando efusivamente a impossibilidade de assistir Serras da Desordem, Falsa Loura e os filmes do Belmonte, um sujeito que me interessa bastante. Enfim, é isso. Hoje tive a oportunidade de trocar duas palavras com o pianista brasileiro Nelson Freire, que apareceu na livraria comprando vários devedês clássicos, de Clark Gable a Humphrey Bogart, e imediatamente me lembrei do documentário de João Moreira Salles, onde ele aparece se divertindo enquanto ouve Erroll Garner ou ao assistir filmes cujos títulos me escapam por agora. O cara é bacana, e o tamanho de sua timidez só encontra páreo na grandiosidade de sua música. Não deixa de ser estranho trabalhar num lugar desses, cujo convívio com várias pessoas que eu admiro há anos é diário e natural, mas que a ética da empresa me castra de tietagens e outras banalidades do tipo. Isso até a Alessandra Negrini voltar lá, claro, de jeans puídos e umas olheiras ebriamente sensuais.

Como eu sou e sempre fui um retardatário para certos assuntos (ou será reflexo da “adolescência tardia” a que sempre me é referida?), só agora consegui um acervo de qualidade para assistir filmes, e, tirando o atraso, fui direto em um que eu sempre quis ver mas nunca consegui devido à ausência de legendas em português. E minha idéia se confirmou: Minnie and Moskowitz é a obra-prima esquecida de John Cassavetes. Antes da intensidade emocional de Amantes ou do fluxo descontrolado de Uma Mulher Sob Influência, está Assim Falou o Amor, tradução tosca para um romance pequeno, simples, que dialoga diretamente com as obsessões do cinema de Cassavetes e é um autêntico elogio ao amor, à paixão que converge corpos díspares porém semelhantes em suas necessidades. Todos os personagens de Cassavetes sofrem por amar demais, o excesso de sentimento pesa a ponto de se tornar culpa e, enquanto a sociedade se encarrega de penalizá-los por isso, a intensidade da entrega ao outro se sobrepõe aos preceitos sociais nesse que é o mais otimista e o mais bonito (dentre os que vi) dos filmes do cara. Gena Rowlands está um espetáculo, e esta é a prova dos nove para quem ainda não se apaixonou pela loira. Ainda melhor que Maridos, Minnie and Moskowitz é o primeiro sinal da força que Cassavetes mostraria nos filmes subseqüentes da década de 70.

E se eu sou frustrado por não ter decorado o número do meu CPF até hoje, pelo menos posso dizer que meu inglês virou outro depois da mudança para o Rio. Saiu da puberdade e entrou na vida adulta com vigor, e isso sem um ano sequer de aula particular, tudo na marra da educação osmótica mesmo. Além de orientar clientes estrangeiros na livraria com alguma facilidade, ontem consegui assistir a Floresta dos Lamentos, da Naomi Kawase, só com legendas em inglês. Claro que não é um filme verborrágico, ou de muitas falas, mas já é alguma coisa. Dormi orgulhoso de mim, do valadarense que sou. Também pudera, difícil esquecer das imagens que Kawase prendeu em minhas retinas. Seguindo a linha de Apichatpong Weerasethakul, Floresta dos Lamentos é uma experiência sensorial que dispensa maiores explicações. A interação que provoca entre homem e natureza é certamente um dos pontos altos do cinema oriental da década, e toda a falação da crítica em torno do filme não só se justifica como também se louva, já que foi só por ter lido bastante a respeito da obra é que fui atrás dela. Leio para isso. O filme é tão precioso na maneira que transforma homem e natureza numa unidade (a exemplo de Mal dos Trópicos) como quando lida com as relações interpessoais entre os habitantes de uma pequena vila encrustada nas montanhas. Fui deitar com uma sensação de leveza que há muito não experimentava. Parece que Kawase possui um outro filme digno de atenção, vou até ele em breve. Por enquanto, fica aqui outra forte recomendação.

Queria mesmo é assistir a adaptação do Visconti para O Estrangeiro, do Camus, já que, a poucas páginas do ponto final d’A Peste, cuja indicação partiu de um antigo colega de faculdade, meu interesse pela escrita e pela postura política do argelino se confirma mais do que nunca. O rompimento com Sartre mostra que a lucidez transpassada pelas obras não se restringia aos livros. E o cara é fera com as palavras, joga com metáforas tão bem como com as frases curtas e os parágrafos longos. Sua descrição da cidade de Oran, assim como sua relação com seus concidadãos, já nos primeiros instantes do livro, mostra que o domínio e a habilidade de Camus com o lápis é o equivalente ao Pelé com a bola no pé. Assim que terminar o livro volto a falar dele e de outras coisas. Como diria Silvio Santos, aguardem. E, até lá, um ano de concretizações para todos nós. Porque, de promessas, o inferno está cheio.


P.S.: Queria falar de Memórias do Subdesenvolvimento, o registro memorial de Cuba sobre as transformações sócio-políticas que o país passou durante a década de 60, tão romantizado como inovador, que o Tomás Gutiérrez Alea cometeu em 1968. É o equivalente cubano ao nosso grande São Paulo S/A, do Luiz Sérgio Person, um sujeito que será tema de uma postagem em muito breve, e o qual você realmente precisava conhecer. Nem que seja para saber que é o pai da Marina, aquele pequeno e sempre constante objeto de desejo deste que vos escreve.



 


é isso aí, bicho

 

10.12.08


[11:28 PM]

Só porque ontem eu fiquei uns 40 minutos rindo sozinho enquanto folheava um livro de tiras do Adão, na livraria.




 


é isso aí, bicho

 

9.12.08


[10:12 PM]


Vicky Cristina Barcelona flagra o momento em que Woody Allen descobriu o prazer tropical de usar havaianas na Europa. Leio em diversos lugares pessoas negando a produção recente do cara e justificando essa insatisfação através da quantidade de filmes que ele lança, sendo este o segundo a pintar no Brasil em 2008. Allen nunca foi um entusiasta da experimentação cinematográfica, seus filmes nunca se propuseram a discutir ou repensar a linguagem audiovisual e ele aparenta pouco ligar para isso. Daí o eterno pé atrás de uma parcela da crítica especializada para com seus filmes? Pode ser, se pensarmos que suas pretensões, tão grandes como sua extensa filmografia, estão a fazer cinema muito mais com o papel e a caneta do que com a câmera. Godard fez mais de quinze filmes durante a década de 60, pouco se importando se estava ou não a conceber exclusivamente obras-primas; a Belair de Bressane e Sganzerla produziu seis longas-metragens em pouco menos de um ano; Hitchcock ultrapassou a casa das dezenas só nos anos 40 e o aparecimento da câmera digital periga folgar ainda mais a questão da produção nos próximos anos. É óbvio que o filtro é necessário, mas a propagação de idéias é o que interessa. Muitos são fracos, estúpidos, meros esboços de idéias geniais? Sim - passo longe de Scoop, agradeço a visita de Igual a Tudo na Vida, desvio de Celebridades e atravesso a rua quando vejo Trapaceiros, mas não ignoro que todos eles adicionam (que sejam apenas números, não ligo) algo na maneira com a qual Allen se relaciona com seu cinema. Só o argumento de Melinda e Melinda vale o filme, o ingresso e o tempo gasto para sua apreciação, pra falar a verdade.

No lugar da suposta compulsão por filmar, por conseguir financiamento anual para empunhar uma câmera, há de se recuar o olhar e perceber que ele, mais do que qualquer outro dos citados acima, fez sempre o mesmo filme. E isso não é uma ofensa, mesmo porque existe aquele famoso conceito de que um autor concebe sempre a mesma obra sob forma e tessituras diferentes, etc. e tal. A cada ano, o que chega até o público sob a égide de Woody Allen é uma linha de pensamento que se estende de maneira coerente e lida com o produto da dissolução das relações, a carência afetiva e o homem urbano às voltas com o meio em que está inserido, de uma forma quase sempre bem-humorada. Acusar um cara de filmar demais, a meu ver, é um argumento tão vago e errôneo que chega a ser engraçado. Antes de ver Vicky Cristina Barcelona (ou Notas de um velho safado) eu já sabia o que me esperava. E não posso dizer me decepcionei, justamente pois sei que a maior das pretensões de Woody Allen é ser ele mesmo. Imaginá-lo de havaianas no set de filmagem diz tanto sobre o enredo do filme como sobre a organização da narrativa: uma faca de dois gumes, onde, ao mesmo tempo em que o texto une de maneira flutuante e harmoniosa os personagens e o cenário em que se encontram, Allen usa recursos preguiçosos como a narração em off didática e empobrecedora para costurar a sucessão coesiva da trama. O olhar sobre as fronteiras morais da fase européia continua a se aprofundar de maneira vertiginosa, sempre estabelecendo linhas de conflito entre disparidades comportamentais e sociais que acabam se chocando em algum momento da narrativa. Mas o vigor quase juvenil com que a abordagem é feita alcança um compasso de entrega passional aos prazeres do corpo que nem dá para imaginar que, por trás daquelas lentes, está um senhor de 73 anos recém-completados.

Não sei se é a idade, mas o cara soube como poucos explorar a beleza de Penélope Cruz (que já estava uma delícia em Volver), um vulcão de sentidos a ponto de explodir em chamas coloridas e que me entristece profundamente ao constatar o vazio que se formou no meio da minha cama. Por ela eu voltaria várias e várias vezes ao cinema, está um tesão dos mais caros, capaz até de desbancar a gostosura de Scarlett Johansson. Em se tratando de Woody Allen, o papo é sempre o mesmo: uns amam, outros odeiam, vários decretam a falência de suas qualidades artísticas e eu acabo sempre sendo convencido a sair de casa para conferir com meus próprios olhos um filme que já vi várias vezes. Sem problemas, ano que vem tem mais.

P.S.: Em compensação, Selton Mello, a quem eu tinha visto na televisão ao lado de Ed Motta falando sobre o cinema de Cassavetes e Sganzerla, enumerando referências e aspirações, foi capaz de criar um dos melhores mecanismos de tortura que o cinema brasileiro pôde ver neste ano que caminha para o fim: Feliz Natal está tão interessado em brincar com luzes, lentes e cores que esquece de acontecer realmente enquanto cinema. É um exercício de ego, onde o interesse em obstruir os caminhos e concentrar personagens em seu próprio mundo de sofrimento, sem esperança alguma de algo que beire a redenção, não faz a minha cabeça de jeito nenhum, simplesmente não dou motivos para existir. Diálogos risíveis, cenas desnecessárias (o que é Leonardo Medeiros em posição fetal no meio da rua?), outras apelativas (o final com o garotinho) e um leve aceno para o melodrama mais barato de Alejandro González Iñarritú. O bacana é ver que Selton gostou tanto do último Batman que chamou Darlene Glória para encarnar Heath Ledger e a atriz cumpriu à risca sua proposta. Está assustadora como o Coringa.



 


é isso aí, bicho

 

 


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