qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

11.3.07


[7:35 PM]

MARÇO: 11 filmes

O Homem Duplo (Richard Linklater /2006)
Concebido como produto genuinamente pop do circuito independente americano, o trabalho de Linklater explora com lucidez um problema que passa longe do cinema mainstream e que é uma questão em voga na sociedade atual e já prognosticada por Phillip K. Dick em 1977, no conto que deu origem ao filme. Não é de hoje que as drogas são vistas como uma das grandes mazelas responsáveis pela debilidade dos centros urbanos, e o argumento usado pelo diretor vai de encontro a tal idéia logo de cara, enfatizando que “a hipocrisia é tão grande que você quer mais é virar usuário”, e a partir daí nota-se um dos motivos pelos quais vemos tão poucas produções que tratem com eficiência e seriedade a respeito do problema citado. A escolha da imagem animada entra em perfeita sintonia com a proposta do filme, que tem um início espetacular e se junta a Trainspotting e Réquiem Para Um Sonho para moldar o intrincado universo narcótico desses tempos atuais.

A Idade da Terra (Glauber Rocha /1980)
O que me pareceu mais imediato foi a constatação de que após pouco mais de 15 anos de exercício atrás das câmeras, Glauber se tornou um cineasta que foi aos poucos se fechando irremediavelmente em torno de seu próprio umbigo. O resultado desse seguimento (que nada mais é que um comprovante de sua “caretice”) se dá aqui com um filme datado, preso ao discurso pragmático do baiano, que já no início do processo de abertura para a democracia ainda tocava em temas vigentes no primeiro dos governos militares. Tivesse usado toda sua inegável inteligência para servir de farol e apontar caminhos através dos trabalhos realizados no cinema, certamente poderia ser lembrado e honrado com o título que por muitos lhe é atribuído como o maior dos cineastas brasileiros. Não sei se chega a tanto, e o considerar por A Idade da Terra – que possui interessantes passagens, apesar dos deslizes – me leva a crer num fisiologismo que está longe de receber méritos.


Embriagado de Amor (Paul Thomas Anderson /2002)
Só a cena em que Adam Sandler se encontra na cama, de roupão e tentando esboçar um sorriso enquanto Emily Watson ouve impropérios da cunhada já valeria o filme. Sempre que assisto a Embriagado de Amor penso naquelas fotos raio-x que vemos na Superinteressante do cérebro humano, um híbrido das mais distintas cores cada qual referente a um estímulo emocional, e imagino que durante o filme todas aquelas regiões são afetadas e a cabeça vira um pandemônio colorido, como se colocassem aqueles pisca-pisca heterogêneos que vemos no Natal numa caixa e os ligassem na tomada. Juntamente com Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola e A Última Noite (não o citado abaixo) de Spike Lee, o filme de PT Anderson sobe ao pódio para mostrar o que de melhor o cinema produziu na presente década.

A Última Noite (Robert Altman /2005)
É apenas a terceira visita que faço à obra de Altman, o que não considero suficiente para colocá-lo num nível superior da cinematografia visto a impressão não mais que boa evocada pelos três filmes. Mas o que mais me impressiona em sua direção é o tão famoso informalismo elegante com que conduz suas narrativas, transmitindo um panorama sempre realista das situações devido ao grande espaço aberto para improvisos e colocações de última hora no roteiro. Seu epitáfio é uma demonstração exata de sua notável capacidade para tratar das relações internas e cotidianas de um grupo social marcado por conflitos que urgem uma interação comum - neste caso o último show de uma rádio folk nos EUA. Além de extremamente simples e mesmo assim num nível de raro requinte, é tão simpático que fica impossível se desvencilhar com indiferença.

Apocalypto (Mel Gibson /2006)
Apesar de padecer da síndrome da parábola matemática decrescente, o último trabalho de Mel Gibson é uma surpresa bastante agradável caso você entre no cinema consciente de que, apesar de todos os precedentes históricos e referências à cultura maia, todas as recriações hipotéticas que vemos na tela são simplesmente e nada mais que puro... cinema. É certo que há tempos o cara acredita na teoria de que o corpo humano é um simples pedaço de bife e, portanto, o mundo é um açougue, o que justifica não só as torturas de Jesus naquele filme fatídico como também as cavalares doses de sangue neste aqui. Mas a partir do momento em que nos é enviado o convite para a concepção de um universo fantasioso, ao qual jamais tivemos contato, imerso de caracteres peculiares e não menos extasiantes, adentrar esse mundo pode trazer gratificantes recompensas. E, pensando bem, poderia ser muito pior: alguém aí pensou em A Paixão de Cristo 2 - A Ressurreição?

Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci /1972)
Há um embate, no espaço não-oco da minha cabeça, entre as adaptações literárias restritas de subjetivismo que vão para o cinema. Caso o plano da escrita não apresente características que possam vir a permitir múltiplas definições a respeito das imagens que construo na minha imaginação, assim que termino de ler o livro, tenho a estranha sensação de que falta alguma coisa. Defini-la é impossível, simplesmente sei que falta alguma coisa. Li Último Tango em Paris há 3 anos, e por isso já possuía na memória todos os planos que encontrei no filme de Bertolucci. Por mais que tenha Marlon Brando, Maria Schneider, Paris, um pote de manteiga e Antoine Doinel, a cada sequência ficava mais nítida a impressão de um pleno dèja vú, sem tirar nem por, o que é não menos que óbvio, já que o livro tá lá na minha estante, empoeirado. É uma dificuldade que eu tenho e que me acompanha desde a fase, hum, vamos lá, Harry Potter (e hão de concordar, é muito mais complexo entrar em sintonia com o pensamento da escritora inglesa tendo contato apenas com os livros, devido à riqueza daquele universo, o que por si só já me motiva a ver os filmes da série) e que preciso trabalhar e reeducar caso queria continuar lendo livros e vendo-os no cinema.

Onde Começa o Inferno (Howard Hawks /1959)
Toda a intensidade que se espera de um faroeste, somada à sugestão de um considerável teor de violência graças à tradução brasileira não condizem com o que nos é apresentado por Hawks no filme. Seguindo os moldes narrativos convencionais e em momento algum destoando do tom previsível (e também por isso cansativo) de uma história de mocinho/bandido no Velho Oeste, o grande mérito está mesmo no elenco, de uma competência suficiente para me manter acordado durante os 140 minutos da projeção, numa quente madrugada de domingo. Mais uma prova convicta de que com a trupe intrépida de Sergio Leone não há competição.

O Labirinto do Fauno (Guillermo Del Toro /2006)
"É uma fábula, Samuel, não vou perder meu tempo não." Ah, os adultos...

Borat (Larry Charles /2006)
Eu sinceramente não entendi. Não entendi nada. E nem é porque falaram tanto a respeito, incensaram demasiadamente o protagonista, deram uma indicação ao Oscar de roteiro, crivaram-no de frases do tipo "a melhor comédia dos últimos tempos", não é nada disso. Simplesmente entrei no cinema afim de hora e meia de entretenimento, esperando boas gargalhadas (o que é normal vindo de uma comédia) e disposto a despir o filme de sua camada de simples besteirol caso estivesse diante dum produto que realmente apresentasse algo de valor, mas o problema é que até agora não consigo enxegar graça em nada, tenho a vaga impressão de que ou o projetista se confundiu com os negativos, ou então - e isso me soa cada vez mais assimilável - Borat é mesmo uma bela piada, mas daquelas tão mal contadas que você só ri pra não deixar o locutor envergonhado.

Ghost Dog (Jim Jarmusch /1999)
É interessante notar o ímpeto subversivo que marca o filme desde o início, onde há a transposição do samurai oriental para o americano negro, que ouve rap e usa pombos-correio para comunicação. Além de jogar os gângsteres num universo ainda mais contemporâneo que o de Pulp Fiction, onde a discussão agora é sobre Snoop Dogg e Public Enemy, ao som de RZA e afins, Jarmusch usa todos esses elementos para traçar um painel sanguinolento do submundo americano, seguindo os passos de Tarantino (a comparação é inevitável, mas nem por isso o resultado aqui é inferior ou pode ser tratado como uma mera cópia) e ao mesmo tempo mostrando personalidade na composição do personagem principal e da trama em si. Uma pérola subestimada.

O Cinema Falado (Caetano Veloso /1986)



 


é isso aí, bicho

 

1.3.07


[10:07 PM]

Depois daquele filme com o John Cusack baseado no livro pop do escritor inglês que vocês conhecem, a elaboração de listinhas sobre os mais variados assuntos – desde os melhores livros até os piores rótulos de Coca-Cola – passou a ser item quase que obrigatório em blogs que falam diretamente aos que buscam qualquer coisa. Notei então que reservava parte do meu precioso tempo, da minha paciência e da minha quase caridosa boa vontade (um dia eu chego lá, Gandhi) para compor listas onde figuravam apenas os filmes mais importantes de cada ano. E como navegar é preciso, enchi meu bote no posto da esquina e agora remarei em outras águas, aquelas que nos transportam de maneira quase espontânea para 1972, um ano que, ao contrário do que você pensa, também não terminou.


# CINCO DISCOS QUE VOCÊ PRECISA OUVIR e que, meu irmão, vão fundir a sua cuca


Transa
Caetano Veloso

É o primeiro disco de Caetano após a volta do exílio londrino ao qual foi submetido junto com Gil, em 69. Em Londres, capital mundial da música de qualidade (e de tudo mais o que você pode imaginar no quesito loucura) no início dos 70’s, Caetano chamou o arranjador Jards Macalé para montar seu segundo disco em inglês, onde há uma fusão de violão, reggae, Beatles, poesia barroca, Gal Costa e rock’n’roll. Figurando no topo da obra do baiano em várias listas (inclusive a minha), Transa é daqueles discos que possuem a exímia capacidade de transcender do plano musical causando sensações indizíveis e buscando novos delírios. Não é à toa que recebeu esse nome.

Gal Fatal – A Todo Vapor
Gal Costa

Uma ode ao desbunde: hippies por todos os lados, Gal de roupas coloridas e de pés descalços, Lanny Gordin insano na guitarra, muita fumaça no ar e um clima de total improviso, visto a queda do violão de Gal e as referentes desculpas da cantora, tudo ali, ao vivo e registrado nos dois discos. O repertório seguiu a essência tropicalista e conta com composições de Caetano, Waly Salomão e Macalé, Luiz Melodia, Roberto e Erasmo e outras figuras marcantes. O show, um marco da cultura udigrudi setentista, se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Gal e é um retrato fiel de uma época em que o barato era ser lóki, bicho.

Acabou Chorare
Novos Baianos

Um caso exemplar de fuga da obviedade. Os filhos da Tropicália embalaram a juventude paz e amor em seu segundo elipê, que traz clássicos como Brasil Pandeiro, A Menina Dança e Preta, Pretinha. Nelson Motta, em seu livro Noites Tropicais, citou o disco como um dos maiores símbolos do pop brasileiro, e ressaltou as divertidíssimas gravações, onde quilos de maconha foram consumidos e a criatividade da família-comunidade foi toda despejada em 10 músicas, todas da melhor qualidade e com um suingue que só sendo brasileiro nessa hora.

Clube da Esquina
Milton Nascimento e Lô Borges

Foi quando aquela trupe intrépida de amigos que adoravam tomar cerveja num bar de esquina tocando violão e escrevendo poesia resolveu gravar um disco. Milton, Lô, Fernando Brant, Beto Guedes, Márcio Borges e mais uma moçada gente finíssima levaram a brisa mineira para além-mar, com suas músicas doces, algo bucólicas e que transmitem uma plena sensação de tranquilidade, alcançada somente graças à conjunção do talento dos firmadores do movimento. E quando houver oportunidade, leve sua mulher para um boteco numa rua tranquila em Ouro Preto, sente na calçada, coloque o disco na vitrola e peça em casamento. É fatal.

Jards Macalé
Jards Macalé

E no garimpo, bem lá do fundo do baú, vem um disco injustamente esquecido e que pouca gente tem conhecimento, o primeiro trabalho solo do até então arranjador Jards Macalé. Um trabalho bastante econômico, com Lanny Gordin no violão e Tutty Moreno na batera, traz parcerias escritas com Waly Salomão (à época ainda assinando Sailormoon) e Torquato Neto, o anjo torto da Tropicália. Em 10 músicas, Macalé desfila suas influências em vários ritmos, do jazz ao blues, passando pelo samba e pelo rock’n’roll, sem nunca deixar de lado a veia brasileira que corre em seu sangue. E se você, cê mesmo, por alguma intervenção divina resolver pedir o desquite da preguiça e ir atrás de algum dos discos listados aqui, vá direto nesse. E desafine o coro dos contentes.


# Enquanto isso, lá fora...

... o mundo ouvia pela primeira vez o disco que imortalizaria o Pink Floyd, sendo até hoje The Dark Side of The Moon a obra mais marcante do grupo.

... Jagger e seus amigos saíam do isolamento e iniciariam a turnê de divulgação de Exile on Main Street, peça fundamental na discografia dos Stones e um dos discos que você realmente precisa ouvir antes de morrer.

# E aquecendo os motores por aqui...

... os Secos & Molhados entravam em estúdio para as gravações de seu primeiro disco, cuja capa é uma das mais célebres da notre musique e o conteúdo não fica nada atrás.

... João Gilberto subia num avião contra sua vontade e ia para os EUA gravar um de seus melhores discos, intitulado apenas João Gilberto (conhecido como White Album), e que conta com um repertório de primeira qualidade, com João ao violão e Sonny Carr batendo vassourinha numa lixeira (isso mesmo, LIXEIRA) na percussão.



 


é isso aí, bicho

 

 


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