qualquer coisa
num verso intitulado mal secreto
 

25.4.08


[9:23 PM]


Paranoid Park cresceu assustadoramente quando passou pela prova de fogo também conhecida com revisão. Quando o assisti pela primeira vez, no último Festival do Rio, saí da sala com a impressão de que Van Sant não sabia o que fazer após a radicalização de proposta que é Last Days, o cara se encontrava perdido, sua carreira estava para sempre fadada a obras menores cujo sumo estaria todo na predecessora trilogia do silêncio. E como eu sempre quis usar essa expressão, aí vai: ledo engano, Samuel. Os três amigos que estavam comigo saíram falando que o filme era morno, não acontecia nada, era bem filmado mas não tinha muita coisa a dizer, “só os skatistas vão gostar”. Mais uma vez, leda nagle. Pois que, diante de toda a falação positiva que permeou o filme nos primeiros meses do ano, senti que precisava dar uma segunda chance a ele mesmo ainda tendo várias de suas imagens frescas na memória. O primeiro sinal de sua força potencial que fui descobrir só agora vem daí, dessa capacidade de se sustentar enquanto diagnóstico do universo de um jovem ao mesmo tempo em que reitera as experimentações visuais que confirmam Van Sant na linha de frente do atual cinema americano.

Descobri um novo filme após rever Paranoid Park, e essa é uma das melhores sensações para uma pessoa que curte cinema, como eu. O processo de conhecimento, assim como nas relações interpessoais, acontece no filme de maneira compassada e gradual, e agora é nítido para mim o estranhamento inicial que as imagens causaram e como uma aproximação lenta, desprovida de qualquer intenção, fez com que eu absorvesse de maneira mais íntima a personalidade híbrida do filme. É que raramente me dou bem com estranhos à primeira vista. Só o tempo lapida as minhas relações, todas elas, e era disso que a obra de Van Sant precisava. O alcance de identificação que o filme possui, seja através da poesia das seqüências saturadas no parque, das entradas arrasadoras de Julieta e Nino Rota em momentos inesperados da narrativa, dos silêncios e da postura contida e indiferente do protagonista (que é a cara da Mallu Magalhães), tudo é tão vivo que a intensidade do diálogo foi progressivamente transcendendo da tela e acabou por me fisgar totalmente. Se por muito pouco não consegue superar Elefante, desde já figura entre os mais bonitos e representativos filmes que o cinema dos últimos anos cometeu. Certamente minhas pupilas ainda agradecerão com um brilho entusiasmado as muitas visitas que pretendo fazer ao parque de Van Sant.


Paranoid Park (Gus Van Sant, 2007)




 


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23.4.08


[12:16 AM]

Chão de Estrelas

Minha vida era um palco iluminado
E eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão lá no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do Sol a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher, pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional.
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
E tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

Orestes Barbosa



 


é isso aí, bicho

 

21.4.08


[4:52 AM]

5x1 (em homenagem ao placar do sofrível jogo que meu time fez, quarta passada, na Bolívia)

- João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira anunciou que fará quatro shows em solo brasileiro no segundo semestre desse ano, depois de um hiato de cinco anos. São oportunidades únicas para ver e ouvir de perto o homem que inventou a música brasileira moderna, já que ele raramente sai de casa, nem mesmo para comer. João, que é fã ardoroso de boxe e inclusive já atrasou vários shows no exterior só para ver o desfecho de certas lutas no ringue, homenageará o cinqüentenário da bossa nova, estilo que nega ter criado e cuja associação a seu nome e sua imagem já rendeu até processo judicial - vencido pelo cantor. E agora ele aparece novamente se ligando ao movimento, com shows no Carnegie Hall e em Tóquio já agendados para o segundo semestre desse ano. Vai entender a cabeça do velho... Só espero que João seja leitor de jornais e esteja a par da crítica situação financeira dos brasileiros que pretendem ocupar os assentos de seus shows em agosto - não gostaria de ter que penhorar meu irmão, mais uma vez, para ver o baiano cantar. Se vaia de bêbado não vale, que ao menos nós, tupiniquins pobres, possamos aplaudi-lo de pé.

- O grande filme do mês até agora vem da França. Jules Dassin morreu há umas semanas e como eu não havia tido nenhum contato com sua filmografia, fui direto ao ponto: Rififi, de 1955, é um ótimo noir e uma verdadeira aula de ritmo e montagem. A famosa seqüência de roubo - trinta minutos de olhares e movimentos corporais sincronizados, sem um diálogo sequer, uma espécie de balé entre ladrões - é para ser assistida milhares de vezes por qualquer cineasta que tencione filmes de roubo, de Soderbergh a Mamet. É interessante também a manipulação das expectativas em cima dos anti-heróis para os quais torcemos durante todo o filme (ao longo das situações sofremos com e por eles), até a imparcialidade de um final que se abstém de qualquer colocação ideológica, de um modo que faria bem a alguns Hitchcock's menores, numa comparação tosca que me veio à memória ao término do filme. Vejo que gostaria mais de Disque M Para Matar e Festim Diabólico se eles não terminassem com uma visão tão positiva de mundo e das ações das pessoas. Hitch era politicamente correto em relação à isso, creio eu. O desfecho do filme de Dassin é desiludido, amargo, perfeitamente coerente com a construção dos personagens da narrativa.

- Fiquei pensando durante dias sobre uma possibilidade de roteiro que se assemelhasse ao ato conclusivo de A Conversação, filmaço que o Coppola cometeu no ano mais inspirado de sua carreira. A partir da seqüência em que Gene Hackman chega ao hotel, a atmosfera de paranóia que vinha sendo construída ganha uma potência avassaladora e o filme cresce para além de seu alcance, e ainda destrói toda e qualquer hipótese de afirmação previamente suposta, numa virada inteligente e elaborada de maneira elegante pelo roteiro. A sobriedade com que o filme se desenvolve, fruto da experiência de seu realizador com a saga dos Corleone, arquiteta cada passo do investigador de um modo lacônico, fazendo com que o espectador absorva toda aquela atmosfera de inquietação sem nenhum plano em excesso, a economia na encenação chega a impressionar. E a mão ensangüentada no vidro me fez pensar em algo próprio que a reaproveitasse de alguma forma, porque aquela cena ser introduzida no filme, daquela maneira e naquela altura do campeonato, é até sacanagem com o restante do fôlego que eu ainda tinha.

- Jovens, Loucos & Rebeldes (Dazed and Confused) mostra que o cinema do Linklater é erguido sobre os pilares de uma informalidade que soa como reflexo puro do conceito de liberdade que cada filme seu explora de maneira diferente. É a comunhão perfeita entre forma e conteúdo, ao som de um rock’n’roll de qualidade. Exalando THC por cada buraquinho da televisão, o filme é habilidoso no modo em que constrói e explora os personagens e os insere no universo do último dia de aula, reproduzindo essa que talvez é a sensação mais nítida de libertação que acontece na vida dos jovens. Dinâmico e pra lá de emaconhado, flui de uma maneira bastante envolvente e termina otimista, olhando pra frente, rumando o desconhecido, the long and winding road... Jason London comanda um ótimo elenco em que Rory Cochrane e Sasha Jenson me soaram bem familiares, os caras parecem muito com dois amigos meus (e seus estilos de vida jah-jah-rasta-babylon-fire-jamaica-man).

- E, pra terminar, o piano de McCoy Tyner só não é a afirmação plena de que a divindade pode sim ser alcançada pelo homem porque o sax do John Coltrane em “My Favorite Things” é das coisas mais espetaculares que o ser humano já produziu em solo terrestre. Como se não bastasse toda a experimentação que marca o disco homônimo de 1961, há ainda uma releitura para uma canção dos irmãos Gershwin que mostra a habilidade de Coltrane na reinvenção de arranjos de terceiros e o afirma, para além de um compositor dos grandes, como um intérprete do primeiro time. É bom demais descobrir essas coisas às quatro da madrugada!




 


é isso aí, bicho

 

17.4.08


[1:47 AM]


Scorsese sabe que o conceito estrutural de um show dos Stones possui semelhanças com a armação de um concerto de jazz: parte-se de um ponto fixo, que fica por conta de um repertório prévio e de uma noção básica de encenação, mas o que realmente dita o ritmo e garante o espetáculo é mesmo o improviso. O percurso até o destino final é uma incógnita voltada exclusivamente para a experiência. No caso de The Rolling Stones – Shine a Light, temos a performance de uma banda que há quarenta anos faz um rock’n’roll autêntico, vibrante e com muitas firulas, principalmente por conta do rebolado enérgico de Mick Jagger. Scorsese disse não ter tido acesso ao repertório do show até minutos antes de seu início, a solução então foi ligar suas câmeras e deixar que as pedras rolassem por conta própria. E o resultado final é um filme de grandes qualidades e que pulsa jovialmente a cada seqüência musical. A começar pelo vigor dos caras, que impressiona qualquer um - não fossem as rugas expostas a todo momento na tela, podia-se julgar que, no palco, os Stones (e principalmente Jagger) não envelheceram. A simpatia com o demônio pôs em negócio a alma dos quatro ingleses, que em troca receberam a garantia de uma descarga elétrica que parece não ter fim. E é por isso que os Stones, ainda hoje, são os maiores e os melhores no que fazem.

A sessão foi praticamente particular. Eu e meu pai na companhia de mais um roqueiro solitário, três cabeças diante daquele jorro de guitarras e luzes, de vibração corporal, de quatro décadas de estrada, de constatação de uma velhice que parece não ter se consolidado. Os Stones estão velhos, e como envelheceram bem! Keith Richards alcançou um patamar solitário no panteão da música, é o rock’n’roll por excelência, a personificação de um estilo próprio que ele fundou e que ainda não produziu seguidores. Seus gestos, suas expressões, o modo de se vestir, de se mover no palco, o cigarro cuspido com violência no chão, todos esses fatores mostram porque o cara é o maior bad motherfucker de que se tem notícia. E Scorsese registra todas essas facetas icônicas com um time de fotógrafos de primeira linha, fazendo com que os enquadramentos do filme se tornem verdadeiras pinturas de antologia. Aliás, sensacional o resgate de Connection com Keith nos vocais, acabou sendo o meu momento preferido do filme, ao lado de All Down the Line e da participação poderosa de Buddy Guy.

E não importa o cenário, seja a praia de Copacabana ou o Beacon Theatre; nem o tamanho do público, 1,5 milhão de pessoas ou os 500 sortudos que presenciaram os dois shows, o barulho que aqueles quatro senhores conseguem fazer em cima do palco ainda é alto, muito alto, “play it LOUD!” é o lema. A escolha do repertório não deixa nada a desejar, 18 canções dos anos 60 e 70 (sendo quatro delas do maior dos discos de rock), três dos anos 80 e nenhuma de 1990 pra cima. A peneira foi inteligente e felizmente soou saudosista, mas Scorsese me surpreendeu com a ausência em particular de Gimme Shelter, figura tão presente em vários de seus filmes. É óbvio também que muita coisa boa ficou de fora, mas com a imensa discografia dos Stones à disposição é possível que se faça, no mínimo, uns três set's só com lados B e faixas que não entraram no repertório final e que ainda assim garantiriam um showzaço. Mas bastam os acordes iniciais de Jumpin’ Jack Flash para arrepiar qualquer alma viva, do cóccix até o pescoço, e a constatação de que o que me resta é somente voltar ao cinema mais umas duas vezes e agradecer ao demônio por um excelente serviço prestado à humanidade.


The Rolling Stones – Shine a Light (Shine a Light, Martin Scorsese, 2008)



 


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15.4.08


[12:31 AM]

Hoje fiquei sabendo que o pai da menina por quem eu tive uma paixonite boba durante a adolescência morreu, lá na cidade de onde vim. Morreu por escolha própria, numa atitude deliberada que não cabe a ninguém julgar (e cujas razões não interessam à esta escrita). Porque é preciso, antes de tudo, muita coragem pra pular da cobertura de um prédio. E por mais que eu nunca tenha trocado uma palavra sequer com a menina, nem nunca visto ou tomado conhecimento da pessoa de seu pai, essa notícia caiu no meu dia como uma tempestade tropical cai acinzentando céu em dia de verão. Durante toda a infância, nunca soube de nenhuma história de suicídio ligada diretamente à minha pessoa, seja por meio de familiares ou até mesmo de conhecidos. O único caso que eu conhecia era o do Kurt Cobain, que, até onde se sabe, optou por um tirambaço de doze na boca para acabar com a própria vida. Talvez mortes assim possam até ter ocorrido ao meu redor, mas num ato de singelo eufemismo, como que preservando um aspecto asséptico de pureza que existe nas crianças, ninguém nunca me falou nada. Só com a idade é que eu fui descobrir que a tia de fulano tinha tomado uma dose letal de comprimidos e que o primo de sicrano pulou em cima das tendas dos camelôs, do 8° andar do prédio onde morava, para morrer na contramão atrapalhando o tráfego dos que passavam pelo local.

Por isso que hoje, a notícia de que o pai daqueles olhos verdes (cuja beleza quase ninguém na escola reconhecia) morreu veio até mim de forma cruel, que fez com que eu percebesse, dentre outras coisas, o vazio que em algum momento da vida atinge esses 6 bilhões de habitantes espalhados mundo afora. A hora e a vez de cada um de nós há de chegar, portanto não se assuste, pessoa. Em alguns, porém, a presença desse vão emocional é tão dolorida que a opção por escolhas corajosas parece ser o único caminho. E em momentos como esse, bate também, na cara e mais violenta do que nunca, a certeza de que já não existe mais preocupação em esconder as coisas, de que já sou grande o suficiente pra saber que naquele caixão fechado há um corpo que quis se encerrar daquela maneira. São verdades que talvez seriam aceitas com maior facilidade caso não fossem ditas através de palavras. E se aqueles olhos verdes já carregavam consigo uma enorme e natural carga de tristeza, que nesse momento difícil eles possam simplesmente aceitá-la.



 


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14.4.08


[12:36 AM]




 


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11.4.08


[12:19 AM]


O primeiro contato que eu tive com Copacabana Mon Amour (1970), do Rogério Sganzerla, foi há uns dois anos, através da trilha sonora composta por Gilberto Gil. Nem é preciso dizer que pirei no disco, uma viagem inspirada do músico com apenas dois violões, um bongô e uma flauta. É impressionante o poder sonoro que Gil - então no auge do tropicalismo - alcançou a partir desses poucos instrumentos. E de como houve uma sintonia entre essa força musical e as imagens captadas pela câmera de Rogério Sganzerla para registrar a babel que caracteriza um dos bairros mais famosos do Brasil, quiçá do mundo. Copacabana é o reduto onde a democracia se instaurou de maneira mais equiparada dentro dos limites de nosso território, atribuindo devido espaço para quem quer que seja: homens, mulheres, loucos, pretos, brancos, pobres, ricos, bichas, gringos, proletários, enfim, o tecido híbrido popular que todos conhecemos como Brasil. E não deixa de ser interessante o fato de que a coexistência desses tipos não implica um rebaixamento ou mesmo subordinação de outras classes. Uma simples caminhada pelas ruas do bairro pode se transformar numa aventura pra lá de estranha e, simultaneamente, serve como constatação da harmonia e igualdade que marcou e que resiste ainda hoje no imaginário carioca, apesar de todo o lado negro que habita essa força.

Sganzerla, recém-saído da Boca do Lixo paulista com dois filmaços no currículo, chegou ao Rio e descobriu a África brasileira ao pisar na favela. Quando subiu o morro com sua câmera, constatou o paradoxo que marcava a ferro e fogo a cultura nacional ao perceber o quão rica é a nossa pobreza material. E seu filme vem daí, da força que envolve essas personalidades e toda sua debilidade social, da vontade de atingir algo que nos é oferecido e cujo alcance é impedido por um complexo de subdesenvolvimento que impõe barreiras de caráter até mesmo intelectual. Dizem por aí que o brasileiro não pode pensar. Será? Cada seqüência de Copacabana Mon Amour faz questão de jogar na cara do espectador quem ele é, suas verdades, de onde ele vem e os rumos que o país (e, por conseqüência, nós mesmos) estava tomando há longínquos 38 anos. Marcado por um descompasso inquieto, o filme respira o ar carioca e revela-se, antes de qualquer outra coisa, um documento histórico de um bairro cuja genética embaralhada sempre esteve ali, pronta para ser fecundada. E ainda há Helena Ignez, de beleza maravilhosamente hipnótica, berrando que está cansada de tanta miséria, que seu futuro é a Rádio Nacional e que tem “nojo de pobre, NOJO DE POBRE!”.

Imagino como deve ser lindo ver esse filme no cinema. Desde que assisti, venho fantasiando a possibilidade de ver Helena e Lílian Lemmertz peladas, em cinemascope, na tela grande, os terreiros de macumba e a introdução da famosa Sonia Silk em cena, todas aquelas cores quentes saltando aos olhos, “o sol de Copacabana enlouquecendo certos brasileiros em pouquíssimos segundos, deixando-nos completamente tarados, atônitos e lelés”. Deixem o cara do Casseta & Planeta falar mal do Glauber à vontade, talvez ele nem saiba que o verdadeiro cinema brasileiro não veio da Bahia, e sim do morro, bem lá do alto do morro.

P.S.: Gil, hoje não tem sopa na varanda da Maria. E eu bem que tentei, mas Sem Essa, Aranha é grande demais pra caber aqui. Um dia, quem sabe...



Copacabana Mon Amour (Rogério Sganzerla, 1970)



 


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6.4.08


[10:16 PM]

É engraçado como certas coisas nunca mudam. Todas as vezes em que ligo a televisão e me deparo com Alta Fidelidade passando, não importa o tempo decorrido de filme, vejo-o até o fim. Hoje, por sorte, peguei-o quase do início e não quebrei a tradição: fui com prazer até os créditos finais, mesmo já tendo visto integralmente umas 6 ou 7 vezes e sabendo de cor e salteado certos diálogos e seus devidos tempos. E, ao fim de cada sessão, prometo à minha lista de livros já lidos que não vai demorar para que o nome de Nick Hornby passe a visitá-la com maior freqüência, fato esse – obviamente, como muitos outros - nunca concretizado. O negócio é que vejo no filme de Stephen Frears uma qualidade que se tornou cada vez mais escassa no cinema moderno desde que Tarantino surgiu e se firmou com Pulp Fiction: a capacidade de balancear niveladamente uma história que se sustenta não só pelo que traz de referencial, mas principalmente pelo conteúdo que representa e pelo modo como este é encenado.

Frears absorveu bem toda a avalanche musical presente no livro do escritor inglês, mas não esqueceu de que a trilha sonora existe como peça complementar do filme, sendo antes um instrumento cênico do que o principal motivo de existência da narrativa – ao contrário do Cameron Crowe, por exemplo, que parece se satisfazer com qualquer bobagem apenas para desfilar suas preferências musicais para os espectadores. Há, em Alta Fidelidade, vários fatores responsáveis pela empatia com que recebo o filme todas as vezes: a crise da meia-idade de um garotão e sua incapacidade social, o cargo de dono de uma loja de discos antigos, os amigos restritamente ligados à música e todo o universo que a acompanha, os foras das namoradas e a necessidade de encontrar um motivo para estes, suas dezenas de deliciosas listas, para tudo e para todos e, por final, os monólogos direcionados exclusivamente para a câmera, reiterando a identificação através desse mecanismo informal. É quase um papo de boteco sobre mulheres, desilusões e música.

A dinâmica do filme está numa montagem esperta, porém contida, longe dos malabarismos visuais à MTV, direcionada a equilibrar os meios condensando todos esses elementos citados acima e os recheando com um som da melhor qualidade, dentre eles Velvet Underground, Bob Dylan, Elvis Costello, The Kinks, Love e The Beta Band. Todo esse conjunto adicionado à interação entre os personagens não poderia ter dado um resultado melhor: Jack Black está hilário e comete sua melhor atuação, servindo sempre ao personagem e sem a vontade de tomar o filme para si; John Cusack foi a escolha ideal para recriar as instabilidades do arquétipo do jovem do século XXI, bem colocado e com boa inteligência mas que ainda sofre do mais antigo dos males, o das paixões não-correspondidas; e todos os outros coadjuvantes, de Catherina Zeta-Jones (gostosíssima vestindo uma camiseta dos Pretenders e ) a Joan Cusack, numa boa e especial participação. E, mesmo que não atingisse o ótimo resultado que alcançou, o filme valeria só pelo prazer de procurar por cartazes ou capas de discos conhecidos nas prateleiras da loja e se deparar com preciosidades como Blonde on Blonde ou até mesmo o nosso e essencial Tropicália ou Panis et Circensis, numa rápida e desfocada participação especial.

* * *

Uns dias atrás, folheando umas revistas antigas, me deparei com um artigo sobre Hitchcock e fui acometido por uma vontade irrefreável de voltar ao cinema do gordo inglês, depois de um hiato de não sei nem quanto tempo. Como meu vídeo não está funcionando por motivos que cabe ao além explicar, fiquei impedido de ver alguns menos conhecidos do Hitch cujo alcance em VHS ainda me é mais acessível (é mais fácil ser encarado como limitação financeira do que saudosismo, acreditem), acabei então recorrendo a Disque M Para Matar, grave falha que eu cometia em se tratando da cinematografia do homem. É o primeiro filme dele em parceria com Grace Kelly e também o primeiro onde não consegui encontrá-lo na tela de primeira e sem leitura prévia, mas agora sei que sua figura aparece lá pelos doze minutos numa improvável fotografia.

Ambientando seu filme em praticamente um cenário, Hitchcock é sintético como a primeira frase dos romances de Kafka e entrega todos os pontos que mais tarde serão desenvolvidos já nos primeiros minutos da trama. Há um homem, uma mulher e um crime a ser cometido, e, para que ele se efetue, existem peças que vão se encaixando à medida em que as particularidades das personagens vão sendo moldadas. Não escapa de certa previsibilidade a partir do momento em que o roteiro dá espaço para que algumas teorias encontrem aceitação e sejam validadas, e lá pelas tantas todos sabemos o que vai acontecer. O diferencial neste caso está na maneira com que Hitchcock estabelece uma relação espacial entre os corpos que interagem entre si e cujas propostas se opõem em diversos momentos, e como o faz através dos movimentos de câmera e através de uma iluminação primorosa. Não está entre os grandes filmes dele, mas só o travelling que precede a tentativa de assassinato já mostra o domínio que Hitch exercia sobre seu instrumento de trabalho e que me encanta a cada novo filme.

* * *

Nem toda a esmerada ambientação e o minucioso trabalho de construção climática, seja através das luzes, da trilha sonora ou da formação das personagens salvou Suspiria de ser uma decepção quando o assisti pela primeira vez. Mesmo com um fiapo de enredo, o filme está longe de ser ruim – pelo contrário, é bom, mas decepciona -, mas o fato de se sustentar por tantos anos como referência do gênero me fez pensar numa obra-prima do apocalipse, só que o que aconteceu está mais para esboço do que para um projeto de clássico. A qual fonte, então, pertence a água que Dario Argento bebeu para montar sua obra mais famosa? Volte a 1963 e encare Black Sabbath, de Mario Bava, pois está tudo ali.

Bava fragmentou seu filme em três contos, chamou Boris Karloff para narrar a introdução e para atuar em um deles. É certo que um filme dividido em três corre riscos de se tornar incoerente, de perder o espectador por meio da rítmica das histórias, e de se esconder através de um roteiro falho, mas felizmente não é o que acontece neste caso. O primeiro episódio emula os melhores momentos de Hitchcock, trazendo uma tensão que se agrava a cada toque do telefone e que é refletida no olhar pulsante de Michèle Mercier, um pitéuzinho. Bava, ao contrário de Argento, alia um tremendo senso de construção do medo, através das luzes que projeta sobre seus atores, dos sons que extrai do ambiente (principalmente do toque estridente do telefone) e dos impressionantes movimentos de câmera dentro do cômodo no qual o episódio se passa, com uma dinâmica conceitual que se diferencia nos três momentos do filme.

Meu conto preferido é o terceiro, com luzes que claramente influenciaram o trabalho de Argento, e que dispõe de um interessante jogo de consciência muito ligado ao psicológico e mesmo assim ricamente ilustrado em situações assustadoras. Um filme que alcança a excelência em sua encenação do medo através de imagem, de luz, de som e, principalmente, de conteúdo.

Alta Fidelidade (High Fidelity, Stephen Frears /2000)

Disque M Para Matar (Dial M For Murder, Alfred Hitchcock/ 1954)

Black Sabbath (I Tre volti della paura, Mario Bava /1963)



 


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